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categoria: CONTEXTO

CABEÇA DE BAGRE

Para algumas pessoas absurdamente lesadas, nem as campanhas de conscientização conseguem abrir aquele buraco negro que carregam dentro delas. E assim, não há “levante-o-braço-para-atravessar-na-faixa” que resolva.

 

Sim, esta é uma campanha que tem veiculado com insistência na mídia gaúcha. Quando a gente for atravessar a rua, deve levantar o braço para o senhor motora parar.

 

Muito bem. Ocorre que, voltando para os seres de cabeça oca, tal memorização: faixa de segurança + braço levantado é por demais complicada. Não há possibilidade de abstração para essa espécie do reino animal, os motoristas ignorantes, que fazem a leitura equivocada da mensagem publicitária.

 

Ainda que partamos do pressuposto de que basta um transeunte estar na faixa de segurança para que o motorista diminua a velocidade e pare, não devemos nos esquecer de que vivemos em um país atrasado, que precisa de uma força externa para que as leis (ou a gentileza) peguem.

 

Enfim, todo esse introdutório para dizer que quase fui atropelado hoje. Estava eu, lépido e faceiro, recém-saído da maratona da correção das redações do vestibular da UFRGS, cuja proposta trazia, aliás, as pequenas incivilidades do dia a dia, tentando terminar de atravessar, na faixa de segurança, uma pequena rua de Porto Alegre. Um taxista que trafegava na rua perpendicular de onde eu estava e, portanto, longe do alcance de minha visão, dobrou e tocou seu carro para cima de mim. Mesmo cansado, consegui dar um pulo para trás. O infeliz ser cabeça de bagre, furioso, abriu o vidro, encheu-me de impropérios, dizendo: “Tu não levantou o braço, imbecil”.

 

Momento para reflexão.

 

Sim, portanto não basta mais atravessarmos a rua na faixa de segurança. Caso não levantarmos o braço, conforme mostra o exemplo televisivo, a faixa pertence aos motoristas que se veem no direito de passar por cima. Ou pior: mesmo que não vejamos um motorista aproximando-se, devemos, invariavelmente, atravessar com o braço levantado, sob pena de sermos atropelados caso o motorista não consiga unir o tico (hm, ele está na faixa) com o teco (hm, e levantou o braço, devo parar).  

 

Confesso que a minha primeira intenção foi absolutamente incivil, envolvendo cenas que passavam pelo taxista na minha frente sendo sacudido com certa violência até que seus neurônios fizessem novamente contato… mas vai dizer o que para um ser desses?

 

O pior é que esses seres proliferam-se nas nossas avenidas, serzinhos cheios de raiva, do tipo que cometem uma série de infrações, mas têm sempre uma resposta acusatória na ponta da língua.  

 

O negócio é contar até 10 e, quando estiver no papel de motorista, não repetir a canastríssima atuação desse perfil.      

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “CABEÇA DE BAGRE”

  1. Oi, Paulo:

    O mais estranho disso tudo(além é claro do perigo de ser atropelado) é que esses mesmos “serzinhos” se forem a Gramado e Canela irão se comportar de forma totalmente diferente. Sim, porque nessas duas cidades faixa de seguração TEM de ser respeitada, com braço ou sem braço. O que explica, então, essa diferença de comportamento? Dupla personalidade? Possessão demoníaca? Não sei, mas que o comportamento é diferente isso não dá para negar, eu mesma já tive a oportunidade de comprovar.
    Portanto, caro amigo, o negócio é contar até 10 e rezar, mas rezar muito, para que um dia possamos agir civilizadamente em qualquer lugar que estejamos.
    Beijos
    Marga

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | January 24, 2010, 10:22

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