Seres perdidos, indecisos, sem rumo. Pessoas que perderam a habilidade de discernir o que querem para elas, que insistem em relações fracassadas ou que não conseguem esquecer aquelas que já terminaram.
Na falta de maiores referências, acreditam que o deslocamento também significa movimento. Basta colocar o pé na estrada para ter-se a sensação de que o vazio é preenchido.
Não basta.
O contato com pessoas em bares e cafés é superficial. A solidão fica estampada em cada pequeno gesto, quase um pedido de socorro. Uma voz conhecida, uma fatia de torta, a presença de todas as ausências.
UM BEIJO ROUBADO (My blueberry nights), filme do diretor Kar Wai Wong, faz um retrato lento e doloroso dos descaminhos que qualquer um pode percorrer. Uma excelente metáfora no filme é o grande aquário onde o proprietário do bar (Jude Law) guarda velhos molhos de chaves. Cada uma delas, deixada especificamente para que alguém especial a buscasse, repousa no vidro com a frustração da tarefa não cumprida. São portas fechadas para sempre, diz a personagem. São casas vazias que guardam suas histórias esquecidas nas paredes.
A solidão nas relações humanas é o sabor mais óbvio na deliciosa torta servida em UM BEIJO ROUBADO, filme que traz uma trilha sonora maravilhosa, pungente, e que traduz, em suas cenas em slow motion, aquele certo descompasso que muitas vezes nos acompanha, a sensação de que algo sempre falta, de que algo é sempre ausente.
É o mesmo gosto que vem do gelo, do branco, outra metáfora, desta vez em LONGE DELA (Away from her), pequena obra-prima da jovem atriz e agora roteirista e diretora Sarah Polley. Com uma atuação soberba de Julie Christie (vencedora do Globo de Ouro por este trabalho e indicada ao Oscar), LONGE DELA mostra não apenas o definhamento de uma mulher belíssima por conta do Alzheimer, mas também o luto, o sacrifício em vida, a viuvez simbólica do marido saudável.
Tão logo os efeitos da doença aparecem, a mulher decide internar-se em uma clínica especial, contrariando a vontade do marido. Seguindo as regras do lugar, eles ficam um mês sem se ver. Ao visitá-la, o marido descobre que ela já mantém um vínculo com outro homem, em estágio ainda mais avançado do que ela.
O que torna a esposa ativa é a certeza de que há alguém ali dentro que precisa dela. E é também isso que destrói o coração do marido, que visita uma mulher que não é mais aquela com quem viveu por 45 anos.
O conflito, tão verossímil, revela-se no olhar marejado de Gordon Pinsent (extraordinário) no papel do esposo incansável que, assim como nós, espectadores, testemunha sua vida escorrendo pelos dedos. LONGE DELA é todo fragmentado, ótima técnica porque remete a esse tempo psicológico, aqueles segundos que nos levam a outros tempos, nem sempre com uma razão lógica.
Ninguém vai tirar o que vocês já viveram, diz a enfermeira. O marido nada responde, porque sabe que aquilo é verdade, mas é contraditório, porque muito – uma vida –, e pouco. Tão pouco, já que em seus olhos está a mulher com quem esquiava, passeando por entre arbustos nevados.
As marcas do esqui na neve. O sorvete da torta que derrete. A história longa interrompida por uma doença. As histórias breves interrompidas por detalhes, porque todo o relacionamento, hoje em dia, parece já começar com data de expiração.
UM BEIJO ROUBADO e LONGE DELA são filmes muito diferentes, mas que comungam de situações muito similares: emoções não necessariamente fáceis de serem explicadas, porém muito simples de serem compreendidas. E sempre, sempre acompanhas de uma solitária dor.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Olá, Paulo!!!
Tudo que você diz no texto é a mais pura verdade. É mesmo muito duro saber e ver que, em algum momento da vida, todos nós nos sentimos ou estamos assim: indecisos, sem rumo, sem a menor idéia do que quer pra si mesmo.
Mas o pior mesmo não é sentir-se ou estar num estado desses, mas fazer dele uma opção, um estado de vida.
Todos nós temos o direito de, às vezes, nos sentirmos perdidos, desnorteados; o ruim é fazer disso uma “bandeira” , ou “desculpa” pra desistir de si mesmo e da vida.
Parabéns pelo texto!!! Muito bom!!!!
Abraço, Thalyta