Em um dos seus últimos romances, As intermitências da morte, José Saramago constrói uma parábola em que a morte, cansada e insatisfeita, resolve entrar em greve, suspendendo os seus trabalhos em um pequeno país não identificado. Após a caótica interrupção, que traz mais confusão do que benefícios, uma morte personificada surge nas páginas de sua ficção, retomando o seu serviço, até deparar-se com um músico que passou do tempo de morrer. Quanto mais a morte investiga o que deu errado no morto que não morreu, mais ela se aproxima do artista e por ele se afeiçoa.
Quem dera essa morte-personagem, concretizada na vida real, visitasse o nosso já enfraquecido Saramago, e desse a ele o que no romance foi concedido ao músico: a possibilidade de uma vida sem fim. Mas não será justamente esse o fim de José Saramago?
Quis a literatura, matéria desde sempre simpatizada pelo jovem e humilde português, que Saramago fosse por ela imortalizado. Permanece Saramago, pois, como ele mesmo escreveu em Manual da Pintura e da Caligrafia, “o tempo é este papel em que escrevo”. O tempo deixa a página amarela, mas não se apaga. Não apaga a sua dor frente à humanidade, os seus conhecidos deboches e ranços, a sua filosófica escrita, de pontuação exótica, mas que também bebia no popular e no singelo.
O meu interesse pelo escritor português ultrapassa a academia. Foi ele o primeiro grande autor português que, ainda na universidade federal, me fez estudar toda uma literatura, que me fez viver em Portugal por um tempo para terminar meu doutorado. Mas Saramago, mais que tudo, faz com que eu me lembre do meu avô.
Meu avô contava histórias para mim e meu irmão com uma criatividade ímpar. Sempre ao ar livre, no frio ou no calor, embaixo de um céu estrelado no litoral ou nas proximidades da serra gaúcha. E meu avô via em mim uma semente de contador de histórias. Mais: meu avô via em mim uma semente de um estudioso dos contadores de histórias. Exatamente aquele que eu me tornei. Aquele que hoje eu sou.
Meu avô vive, mas não é mais ele. A demência ou o Alzheimer tiraram-lhe a capacidade de refletir, coisa que sempre fez, magnificamente bem. E talvez seja isso que mais doa em mim: vê-lo e não reconhecê-lo.
Pois escreveu meu avô, em um dos primeiros (dos tantos) livros que me deu do Saramago: “O mestre e o aluno: qual o tempo a separá-los? Muito em breve o aluno será um mestre, pois talento e garra não lhe faltam”. Isso ele me deu no tempo em que eu ainda era publicitário, mas já estudante de letras.
Não consegui dizer ao meu avô que a profecia dele se concretizou. Sou professor, e mais, uma das disciplinas que dou na UFRGS é “Estudos de José Saramago”. Haveria pessoa no mundo que ficaria mais orgulhosa? Porém, infelizmente, já não consigo mais sentar-me ao lado do meu avô para ouvir suas histórias. Nem mesmo contar-lhe que o nosso Saramago morreu.
Morrer, viver. Disso também Saramago tratou. De coisas mágicas, de terras que se separam, de gente que volta depois de morta, de construções de conventos, de homens duplicados, da gente que sofre, mas sorri.
Saramago me sussurrou, no íntimo da leitura, palavras inesquecíveis. Brincou com a morte: “Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha gadanha que não responde a perguntas”, escreveu, respeitou, desdenhou.
Saramago fez o olhar de meus alunos brilharem. Fez, muitas vezes, este mesmo olhar perder-se em lágrimas. Choremos.
Estamos todos cegos. O simpático velhinho que nos contava histórias retirou-se.
E eu estou profundamente triste, como se um tio, um avô, alguém muito próximo de mim partisse sem se despedir. O que escreveria Saramago sobre a sua morte?
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Paulo,
Eu me uno a ti nesse silêncio sentido. Teu avô te apresentou a Saramago e eu fui, como bem sabes, apresentada a ele por ti.
Sem o teu incentivo jamais teria conhecido a obra desse escritor que agora ganha a eternidade. No entanto, assim como Fernando Meirelles, rezo para que ele esteja, nesse momento, sendo obrigado a dar o braço a torçer e que lá no céu, lugar que ele não acreditava e até desdenhava, ele possa estar sendo bem recebido.
Beijos e parabéns pelo lindo texto.
Marga
Paulo, logo que ouvi a noticia lembrei de ti e da admiração que tinhas por ele.
Mais forte ficou a minha admiração por ti e por teu trabalho ao saber da trama que a vida teceu: Saramago, teu Avô e Tu.
E… se o Céu é o Céu não vai abrir mão de tal TALENTO.
Abraço,Gilka
Professor, parabéns pelo texto. Muito emocionante.
Fico feliz por me ensinares a admirar Saramago cada vez mais.
Matheus
Paulo, de grandes mestres nasce um mestre! Teu avô,o contador de histórias e Saramago – o grande autor português – formam uma dupla e tanto, hein? Feliz de ti que o tens em tua formação!
Lindo teu texto, eu tinha certeza de que o encontraria aqui. Também fiquei muito triste com a partida de Saramago, um homem profundo em nosso tempo. Façamos silêncio para, quem sabe, agora, ouvir melhor ainda as suas palavras.
abraço, Sandra Costa
Paulo achei seu texto extremamente bonito, comovente. Na mesma época em que Saramago faleceu, uma professora da puc-sp, Téia,também tinha falecido…Enfim, cada um chora os seus. Em algum momento da minha vida tinha entendido que Saramago era um dos meus e chorei por ele também. E seu meu mundo já estava silencioso por causa da professora, por um um tempo já não ouvia mais nada. Continuo sentindo muito a falta deles,da professora, em especial, mas ao mesmo tempo me alegro em saber que conheço um pouco do que eles deixaram. Obrigada pelo texto.