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categoria: CINE EUA

O MARAVILHOSO FILME DE BENJAMIN BUTTON

NOTHING LASTS

You can be as mad as a mad dog at the way things went, you can curse the fates, but when it comes to the end, you have to let got…

 

Um exercício de imaginação, uma viagem pela sensibilidade. Um estudo sobre o amor e a morte. Sobre a vida. O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON, filme concorrente a 13 Oscar, incluindo os principais: Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado, e vencedor de dois importantes prêmios do National Board of Review (Diretor e Roteiro), é uma aula de cinema.

 

Tive uma estranha sensação de arrebatamento, algo que há muito não sentia ao assistir a uma obra no cinema. Era como se, por mais absurda que fosse a ideia, eu a tivesse comprado e, ainda mais, vivido. Era como se eu também tivesse entrado na tela. Olhava no relógio naquela incrível perseguição ao tempo, e diferentemente do hábito de achar alguns filmes longos e por demais arrastados, desta vez, eu torcia para os ponteiros irem mais devagar. Ou andarem de trás para frente. Tão logo o filme terminou, tive uma vontade quase incontrolável de vê-lo novamente. Mais tarde, ao ler o blog do excelente jornalista Luiz Carlos Merten, um dos maiores críticos de cinema do Brasil, arrepiei-me com uma sensação tão similar à minha. Disse Merten: “Não sei de vocês, mas existem filmes que me produzem uma sensação curiosa, eu diria estranha. Por mais fantásticos que pareçam – e a história de um sujeito que nasce velho e vive uma vida inversa no tempo, até virar bebê no colo da mulher amada, é fantásticaminha sensação é de estar assistindo a uma coisa tãoreal‘, como se o filme fosse uma janela aberta para o mundo (e os outros). Poderia ficar vendo ‘Benjamin Buttonpor muito mais tempo do que as suas 2h40”

 

É exatamente essa sensação de janela que eu tive. Uma janela que nos transporta para um mundo maravilhosamente impossível, e absurdamente real. Um mundo em que lutamos contra o tempo, contra a degradação. E contra a juventude que destrói todos os sonhos de uma felicidade.

 

Espécie de fábula do elixir da vida ao contrário, O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON é filme para ser discutido com especialistas e gente comum, pois possui inúmeras leituras.

Dirigido por David Fincher, autor do cult CLUBE DA LUTA, O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON é baseado em conto de F. Scott Fitzgerald e trata de uma temática muitas vezes comentada, despretensiosamente, em bares e lares: e se a gente nascesse velho e rejuvenescesse com o passar do tempo? No conto, Benjamin nasce em Baltimore, em 1860, e os acontecimentos pouco críveis têm o comentário do narrador de Fitzgerald: “I shall tell you what occurred, and let you judge for yourself”. Interessante é que, no conto, por terem uma condição social elevada, o casal Button decide ter o filho em um hospital, ainda que isso não fosse nem um pouco comum. As crianças nasciam em casa.

 

“Wrapped in a voluminous white blanket, and partly crammed into one of the cribs, there sat an old man apparently about seventy years of age”

 

É assim que nasce Benjamin, (Brad Pitt) no filme, em 1918. Em casa. E ainda sem sobrenome, é abandonado pelo pai, (Jason Flemyng), após a morte da mãe. O bebê, com todas as doenças típicas de um ancião de oitenta anos, é deixado na casa de Queenie (a ótima Taraji P. Henson, concorrente ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, mais conhecida por seus trabalhos na TV, em séries como Boston Legal, CSI, ER e Felicity). Por coincidência, a doce negra cuida de um lar de idosos, lugar perfeito para Benjamin ser criado.

 

É ali, convivendo com os velhinhos, que Benjamin revela nunca ter imaginado ser uma criança, por ser um igual àqueles estranhos senhores que repetem suas histórias (como a impagável de um que sobreviveu à queda de vários raios), mal conseguem escutar e caminham com dificuldades. Toda a história de Benjamin, na obra de Fincher, é narrada primeiramente por Julia Ormond (com quem Pitt fez par romântico em LENDAS DA PAIXÃO, mas ambos não contracenam aqui), mas em seguida o OFF passa para Pitt. Ormond conversa com a já velha Cate Blanchet (com quem Pitt fez par romântico em BABEL), convalescente na cama de um hospital em New Orleans (outro acerto do roteiro é transferir o cenário, de Baltimore para a sempre mágica e linda cidade da Lousiana), no meio, literalmente, de um furacão, no caso o Katrina, que avassalaria aquela região norte-americana.         

 

Benjamin vai rejuvenescendo, aos poucos, sempre levando a vida com um excelente humor. É quando conhece uma menina ruiva que tem por ele uma simpatia quase instantânea. Ela, neta de uma senhora que vive na casa geriátrica, é cinco anos mais jovem do que ele, apesar de juntos parecerem vovô e neta. Ele diz: “Não tenho a idade que pareço”, e a menina responde que já sabia disso. A cumplicidade é evidente. Obviamente, a menina em questão é a Daisy, vivida mais tarde por Cate Blanchet, que nunca esteve tão bonita no cinema.

 

Os dois personagens perdem-se em alguns momentos pelo caminho. Ela, com 18 anos, decide apostar na dança e muda-se para Nova York, onde convive com artistas e jovens como ela. Ele, apesar de rejuvenescer dia a dia, continua com uma aparência de idoso, e decide partir pelo mundo a bordo de um cargueiro, convivendo com o capitão Mike (Jared Harris), com quem aprende, de fato, a viver, pois longe do ninho protetor da mãe e dos velhinhos. A aventura de Benjamin pelo mundo rende maravilhosas passagens. Encontra, pelo caminho, personagens inesquecíveis, como o vivido por Tilda Swinton (Oscar de atriz coadjuvante ano passado por CONDUTA DE RISCO), uma mulher casada e solitária, que tentou atravessar, a nado, o Canal da Mancha, sem sucesso.

 

O roteiro de Eric Roth (o mesmo de FORREST GUMP, com o qual o filme mantém um diálogo evidente, ainda que este seja um milhão de vezes superior ao filme de Hanks) contempla grandes e pequenas questões. Ao atravessar o século XX, Benjamin enfrenta o pós 1ª guerra e entra na batalha, ainda que de forma coadjuvante, da segunda. Mas as grandes temáticas não são o mais importante. Fica, no final, temas tão profundamente sérios que, por isso mesmo, a muitos soam banais, como a solidificação do afeto, a construção do destino, os descaminhos, as impossibilidades. Gratas e não-gratas surpresas são reveladas, como a que reaproxima Daisy de Benjamin, já àquela época um cara de seus quarenta anos, na pele do Brad Pitt que conhecemos e que arrebata o coração de Blanchet. A cena, contada “como foi” e recontada na forma de “como poderia ter sido”, trata do tema da cadeia de acontecimentos que nos levam a algum lugar… mas que uma falha neste sistema poderia ter transformado este final em um final diferente.

 

SOME THINGS LAST

Life can only be understood looking backward. It must be lived forward…

 

Brad Pitt fez questão de interpretar Benjamin do início ao final do filme. A maravilhosa maquiagem e os efeitos especiais colocaram o rosto de Brad em corpos de outros atores. Uma tarefa árdua que revela, de saída, o empenho de um ator, já consagrado pelas multidões, que fez questão de participar de todo o processo. Por isso, já merece a indicação ao Oscar de melhor ator. O fato é que em nenhum momento não acreditamos que o personagem de Pitt está rejuvenescendo. O tempo passa, todos envelhecem. Menos Benjamin.

 

A certa altura, uma senhora diz que é da natureza do ser humano assumir e presenciar as perdas de seus pares, pois vivemos sempre prontos a testemunhar as mortes e ausências de quem amamos. Benjamin escuta as palavras de sua amiga e sabe que com ele tudo será diferente, mas absolutamente igual. O tempo anda ao contrário, como o relógio colocado por um homem na estação de trem que quis, com isso, voltar na história e evitar que milhares de jovens morressem na primeira grande guerra.

 

O tempo destrói a união de Pitt e Blanchet, que têm atuações primorosas, a começar pela excelente concepção dos personagens, com sotaque sulista fortemente marcado. A relação, repleta de encontros e desencontros, e basicamente caracterizada por uma direção em linha oposta – um fica mais velho, como todos, e o outro fica mais jovem – traz surpresas já previsíveis, mas saborosas.

 

O final, contemplativo, é das coisas mais bonitas que o cinema já fez. Um caso absurdo de amor, no qual Daisy, clandestinamente, cede a sua antiga paixão e cuida do afeto já tão distante. A poesia invade a tela, e num final que lembra AMELIE POULAIN, há uma espécie de inventário, doce e ao mesmo tempo amargo, que fala sobre pequenas vitórias, grandes perdas e o sabor da superação.

 

For what it’s worth, it’s never too late, or in my case too early, to be whoever you want to be. There’s no time limit… start whenever you want… you can change or stay the same. There are no rules to this thing. We can make the best or the worst of it. I hope you make the best of it. I hope you see things that stop you. I hope you feel things that you never felt before. I hope you meet people with a different point of view. I hope you live a life that you’re proud of and if you find that you’re not, I hope you have the strength to start all over again.

 

É a velha sensação da falta, tantas vezes citada por Caio Fernando Abreu. Algo sempre falta, acostume-se. A ausência que machuca. O abraço da mãe. O romance perfeito. A viagem dos sonhos. A primeira vez que se anda de bicicleta. O primeiro dia na escola. Pequenas sensações gravadas, que compõem a nossa história, e que em determinado momento gritam a sua perda.

 

Um filme que passa na nossa cabeça, e que para Benjamin, é de trás para frente. Dentro de cada pequena história dos personagens de O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTONvida. E é a vida quem conta esta história, mesmo que seja ao contrário.

 

Some people get struck by lightning.

Some are born to sit by a river.

Some have an ear for music.

Some are artists.

Some swim the English Channel.

Some know buttons.

Some know Shakespeare.

Some are mothers.

And some people can dance

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

9 comentários para “O MARAVILHOSO FILME DE BENJAMIN BUTTON”

  1. Parabéns pela análise tão bonita e sensível de um filme que traz tantas metáforas:envelhecimento, morte, perdas, ganhos, amizades, vitórias, derrotas, rejeições… Enfim, pode-se dizer que é um filme que contempla a vida em todos os aspectos. Como tu bem colocas, existem inúmeras interpretações a cerca do filme. O espectador, de acordo com sua bagagem individual,possivelmente vai tirar alguma coisa que lhe soe cara e verdadeira. Acredito se tratar de um filme plural, que abarca e conduz todos os tipos de espectadores, desde a crítica especializada aos espectadores eventuais. Diria até que ninguém sai “ileso” do filme, no bom sentido, é claro. Ressaltaria, por fim, como apreciador de bons filmes assim como tu, o entusiasmo e comemoração que tu imprimes na resenha. Em resumo, um filme e uma crítica impregnados de alma e sentimento.

    Posted by Marcelo Brody | February 2, 2009, 23:30
  2. Já tinha a intensão de assistir, agora com a tua análise vou correndo ao cinema e arrastarei a TODOS comigo.

    Beijos
    Marga

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | February 4, 2009, 9:06
  3. O cinema nos desperta sensações, as mais incríveis, nos faz pensar a vida,a morte, como foi este filme maravilhoso…recomendo também “O leitor” , uma história linda que nos envolve o tempo todo!

    Posted by ivone bins | March 5, 2009, 19:02
  4. Esse filme é perfeito… um exemplo para nossa vida….
    demaiss !!!! assistam…

    Posted by Joseane | April 4, 2009, 15:17
  5. olááá..!! fico muito contente por existir um espaço na web site sobre este filme também não era de esperar. Este filme foi muito falado e com uma elevadissimafortuna … com as pessoas que foram ver a estreia … mas … só queria acrescentar que eu vou fazer um trabalho sobre este filme por isso gostava que podesses haver um espaço para os jovens interessados incluindo dicas .. de como falar

    Obrigado

    Petra

    Posted by Petra | April 21, 2009, 8:05
  6. bom!
    na minha o pinião o filme nos mostra uma realidade que nimguem gostaria para seu filho …
    mas omesmo tempo uma linda historia de vida historia que paramos para refletir o nosso dia a dia por que tem pessoas que não tem nenhuma difilculdade na vida e não a gradece a deus pela vida que tem e quer mais e sempre mais o garoto do filme é um exemplo de superação.
    parabens pela criatividade e pelo talento
    um beijo ……..
    kesia leticia da silva
    e thaylise moura da silva
    e magnoi ribeiro moura

    Posted by kesia leticia da silva | July 18, 2009, 22:49
  7. Paulo, adorei seu texto, captou bem a essência do filme. Eu não li o livro do F. Scott Fitzgerald… gostaria de saber se aquela passegem do filme ( some people get struck by lightning. Some are born to sit by a river. Some have an ear for music….) tem no livro ou foi só uma adapção para o cinema?

    Posted by Edsel | July 29, 2009, 16:17
  8. esse filme muito legal e especial
    e uma lição de vida
    gostei muito parabens diretor elencon etc.

    Posted by dan | June 3, 2010, 12:15
  9. Adorei assistir o filme de benjamim uma história emocionante,divertida de ver e ainda apaixonante….

    Posted by marciana reis | March 28, 2011, 18:46

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