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categoria: CONTEXTO

O EU E OS OUTROS

Por algumas vezes, testemunhei amigos digladiando-se contra eles próprios, em uma agonia que a mim assustava, porque não se sentiam capazes para lutar por seus desafios. E eu, no topo de minha suposta torre de marfim, pensava como podia alguém não ter força de vontade suficiente para racionalizar e desenvolver as coisas que deveriam ser desenvolvidas. Pois bem. Na semana passada, saído de um processo absolutamente estressante, acabei me deparando com dúvidas e oscilações de mim mesmo que também me deixaram assustado.

 

Quando temos que provar, literalmente, a um júri, que somos absolutamente capazes de fazermos o que fazemos, empenhamos neste exercício, muitas vezes, um grau de ansiedade que pode, inclusive, derrubar o tanto já construído. Vender o seu peixe, na frente de pessoas altamente gabaritadas, é das experiências mais aterradoras pelas quais já atravessei.

 

Na metade do processo, às vésperas de uma das mais importantes provas, havia tanto que eu gostaria de mostrar a esse júri que não sabia como o fazer. Pensava no final, mas esquecia-me do início. O coração, avariado, balançava de tal modo que pedia espaço para dar uma volta extracorpórea. Tal era a taquicardia, o medo de decepcionar, a mim e aos outros. Uma vontade de escapar pela tangente – aquela inusitada e infantil atitude de esconder-se sob a cama para fugir do grande monstro.

 

Porém, enfrentei o monstro. Os monstros. Especialmente, o meu monstro. Posso dizer que saí vitorioso, no final desse processo. Mas nunca me esquecerei do “meio”, das situações quase heteronímicas em que me vi, de verdade, fora de mim mesmo: uma série de “eus” que eram julgados, primeiramente, por meu superego, determinando qual o melhor “personagem” que deveria entrar em cena.

 

O medo de sermos derrotados por nós mesmos é das sensações mais apavorantes. Temer que simplesmente não consigamos fazer o que devemos fazer, e que a alta carga emocional do processo deixa confuso, é, de fato, uma experiência e tanto, na qual percebemos o quão centrados (ou indefesos e dispersivos) podemos ser.

 

No fundo, notamos que este “exibir-se”, processo de exteriorização que muitas vezes trabalha com personagens por longo tempo acomodados em nós mesmos, é das tarefas mais complicadas que há.

 

A lenta agonia de meus amigos lutando contra situações que, a olhos de fora, eram quase risíveis, e a transferência destes fantasmas para o meu próprio círculo alterou a minha percepção sobre o mundo e sobre mim mesmo. Talvez esteja aí a maior vitória que este tipo de processo pode nos trazer.

       

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

4 comentários para “O EU E OS OUTROS”

  1. Sem comentários! Cada vez te admiro mais.
    Bju no teu coração. Gilka

    Posted by GilkaCoimbra | May 3, 2010, 20:24
  2. Já que esse monstro foi morto vamos a luta, pois ainda existem muitos outros “moinhos” a enfrentar.

    A vitória está na mente e essa, com certeza, alcançaste.

    Beijos
    Marga

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | May 3, 2010, 20:31
  3. Ter a capacidade de refletir sobre os próprios monstros que nos aterram e muitas vezes nos minam (quase num auto-boicote) é a primeira grande luta. Bom ver gente que sabe olhar pra dentro de si e, ao se entender, se enfrentar. E vencer.

    Já sabia disso.

    Posted by Edna | May 10, 2010, 1:59
  4. Acompanho com muito cuidado teus textos.
    Este, em especial, “obriguei-me” a comentá-lo.
    Fiquei surpreso com o enfrentamento mas não com a vitória.
    Abs.

    Posted by Carlos Gutierrez | May 21, 2010, 11:00

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