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categoria: CONTEXTO

O ELEFANTE

Foi sintomático. Sexta-feira 13, uma das maiores trombas d’águas que eu já vi. As salas de aula do Instituto de Letras da UFRGS transformam-se nas Cataratas do Iguaçu. Uma aluna disse: “Quem tá na Letras é para se molhar”, brincadeira que vem a calhar quando muitas aulas tiveram que ser interrompidas por chover dentro da sala. Chover, não. Desabar.

 

Na tristeza do descaso com o ensino federal, nós, habitantes do Vale da UFRGS, abandonados lá no meio do mato, fugimos da enchente que tomou conta do segundo andar do prédio de aulas, a olhar para cima, a olhar para baixo. Viramos, involuntariamente, personagens daquelas reportagens que trazem a difícil tarefa de frequentar a escola pública sucateada. Encontro-me com uma ex-aluna do ensino médio, bixo UFRGS 2009. Ela sorri. Penso: quantos sonhos para entrar na UFRGS, este “ser” quase mítico, personificado pelos vestibulandos como algo (quase) inatingível, e que sofre tanto em dias de chuva.

 

Eis o choque da realidade. Aliás, foge-se para que esse choque não seja literal.

 

Muitos serventes deixam os ventiladores ligados, ad eternum, salas vazias, porque a umidade e as goteiras não cessam. Caminho pelos corredores. Esses mesmos corredores por onde antes caminhava enquanto estudante. Observo essas salas vazias, inundadas, ventiladores barulhentos ligados, e é uma pequena e triste cena. Da chuva se faz quase sempre a melancolia. Outra aluna diz: “Vai ver se na Medicina chove em cima dos cadáveres…”

 

Porto Alegre alagada. E sem os pardais. Alguém roubou os pardais? No trajeto de volta para casa, todos respeitam a ausência presente dos sinalizadores: 60 km/h… ainda que eles não estejam lá. Olha-se para o lado. Estarão os pardais escondidos? Fugiram da tormenta? Todos em velocidade reduzida.

 

Passo por quatro ex-pardais. E penso nesse condicionamento civilizatório. E na decadência. Fingimos que obedecemos às leis quando há alguém – ainda que seja um olho eletrônico – nos observando. Passamos apressados. Buzinamos. Pressa, queremos tudo para ontem. Vamos de um lugar a outro e já estamos atrasados para o outro. E quando de repente, algo interfere nessa cadeia lógica, sentimo-nos prisioneiros de nossos hábitos cotidianos.

 

A ausência dos pardais, a presença da chuva dentro da sala de aula. Situações que absolutamente de nada comungam, mas que transformam a minha sexta-feira 13 nesta coletânea de impressões, talvez equivocadas, quiçá distorcidas, mas que certamente me ferem: o tempo que passa,

o olho que se acostuma,

o estranhamento que se constroi tal qual um elefante branco.

 

E o que fazemos com o elefante?

 

  

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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