De Lisboa
Para onde vão os amores que foram um dia? (p. 295)
O fim de um casamento condenado à rotina. A existência de outras pessoas que voltam a trazer o brilho aos olhos de Paulo. As discussões e brigas com Laura. Um casal que se destrói, aos poucos, aos olhos do pequeno Afonso.
Jovens demais, o filho primeiro foi mais tormento do que felicidade. Paulo precisou provar, em exame de DNA, que era o pai para, finalmente, poder vê-lo. Dias sem enxergar a cria, mesmo na maternidade as visitas proibidas pelos pais de Laura.
Quando as coisas começam a se normalizar e o ex-casal começa a conviver de maneira mas pacificamente, a tragédia. Num passeio com o pai, o filho some. O choque da notícia atordoa Laura, que mergulha num limbo, no branco da amnésia.
Absolutamente fragmentado, experimental, polifônico, o romance emite luzes, pequenos fachos que iluminam a escuridão. São essas as linhas da narrativa que o leitor vai buscando (“o leitor deve sempre ter uma cenoura por seguir”, diz Rodrigo Guedes de Carvalho) e compondo em Mulher em branco (2006), terceiro romance de Rodrigo Guedes de Carvalho (1963).
Já há pouco a ser dito, e muito a ser sentido, no silêncio que habita os personagens de Carvalho. Do lado de Laura, há um pai pouco afetivo e uma mãe centralizadora que quase não possuem vozes. São os outros quem constroem as suas figuras. Personagem forte e riquíssimo é Sérgio, o irmão caçula, que serve como contraponto ao próprio filho de Laura. Foi ele quem quebrou seu doce lar da infância, quando Laura teve de aprender a dividir seu espaço, sensação similar que ela teve quando, nem bem 20 anos, viu-se mãe.
Sérgio é gay e sofre com a invisibilidade por parte do pai, que desde sempre o ignorou. Certa noite, junto de um amigo, é vítima de um ataque homofóbico por parte de 4 homens, numa das cenas mais violentas, elaboradas com uma maestria assustadora de Rodrigo Guedes de Carvalho. Do ataque, estupro e um atropelamento que levam o irmão de Laura para a cadeira de rodas, tudo relatado com um narrador em primeira pessoa, a conversar com Fernando, um ex-namorado (Para onde vão os amores que foram um dia?). Contudo, não há sensacionalismo nem sentimentalismo barato na construção do personagem de Sérgio. O próprio a todo momento ironiza sua própria condição, como na divertida e dolorida cena do casamento da madrinha. Ainda assim, há muito da voz de Sérgio em Mulher em branco, que acaba construindo, também de seu ponto de vista, os dois personagens principais, Paulo e Laura.
Do lado de Paulo, a mãe submissa, como se é de esperar, não tem voz. Subjugada a um marido violento, a mãe esconde sob as roupas de inverno, mesmo no verão, as marcas das surras de seu marido, que arruma uma amante ao mesmo tempo em que assiste à mulher a definhar no hospital. José, o pai de Paulo, esse sim tem voz. Uma voz autoritária, a caçoar da mulher-defunta, do filho e de suas burradas e da filha que pouco lhe procura. Paulo, quando visita o pai, parece estar sempre a querer mijar na sua ex-casa, demarcando um espaço que já não é mais seu, a observar o que está diferente, as coisas da mãe que não mais existem. Num desses dias, quase presencia outra cena carregada pela violência doméstica. José, ao ver Carla, atual companheira, a pedir, com um animal no cio, acocorada no chão, por sexo, acha-lhe puta e massacra a jovem, sangue e dentes a voar. Na seqüência da cena, o filho aparece, e o ridículo da situação: um pai, de cuecas, de esfregar os pés no chão para espantar o frio, escondido atrás da porta onde, no tapete, uma mulher agoniza.
É com a irmã, Dulce, com quem Paulo vive um período após a separação, que o personagem encontra algo similar a um lar. A irmã, lésbica, escondeu o fato por anos, mas o desespero de Paulo lhe bate à porta, e ela é escancarada. Lá, vive Dóris, companheira de Dulce.
Há ainda, na obra, dois personagens frios, que investigam o desaparecimento do filho e a amnésia de Laura. Um médico e um inspetor de polícia. Aparecem sempre acompanhados por um reduzido narrador em terceira pessoa, pois há perguntas a serem feitas, e daí a supremacia dos diálogos, carregados de ironia e desconfiança.
Paulo e Laura, cada qual a sua maneira, seguem despedaçados. Paulo e a culpa. Laura e o silêncio. Até que um dia, como qualquer outro, Laura toma banho e deixa a água envolver seu corpo. E pronto, uma torrente de imagens. Laura recupera a memória.
Brilhantes os dois últimos capítulos, quando essa Laura já recuperada, que muitas vezes diz ter preferido ficar no branco da amnésia, encontra-se com Paulo, no apartamento que foi dos dois. Dos três que já não mais existem.
Entre silêncios e mágoas antigas, o casal tem uma conversa visceral, buscando verdades, destruindo falsas ilusões, a tentar recupera a memória de ambos, o passado que já não há. E é Laura quem diz:
Com personagens incrivelmente bem construídos (quase podemos tocar-lhes), orquestrados por uma multiplicidade de narradores que transitam entre a primeira, a segunda e a terceira pessoas, cada qual trazendo a sua observação sobre os fatos e sobre outros personagens Mulher em branco é um mergulho às sutilezas das relações modernas. Às relações infinitas que acabam. Aos indivíduos preparados para tudo, menos para a solidão. Ao amor que um dia foi. Mulher em branco é prosa poética de primeira linha, a deixar seus ecos como um filme bom, pois é tão imagético quanto.
Rodrigo Guedes de Carvalho, definitivamente, chegou para ficar.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Paulo:
Acabo de ler o que escreveu sobre a sessão no Seixal. É muito embaraçoso para mim, porque nem sei o que lhe agradecer mais : se a refrescante falta de preconceitos, se a leitura atenta. Tivesse eu apenas meia dúzia de leitores assim, e já teria valido a pena.
Um abraço grande do Rodrigo
(Eu conhecia a grande elogio da Agripina, mas você diz , no final, que Lobo Antunes disse algo sobre mim. Posso perguntar como soube disso? Leu? Ouviu? Obrigado)