Ei, você, chega aqui mais perto, assim, olha bem nos meus olhos e me diz, me diz, o que vai acontecer com a gente? Não há mais lágrimas aqui, há pena, sentimento estranho, repetitivo. E essa música triste que não para de tocar. Não me deu um último abraço. Sim, tivemos nosso último abraço ainda quando não sabíamos que era o último. A tua vida já não cabe no meu guarda-roupa e nas poucas gavetas que compartilhei contigo. E eu abro as mãos, e eu te solto para o voo. Não há mais lágrimas aqui, há uma leve dor, tal agulha, fincadinhas precisas, mas suportáveis . E é assim que encaro a tua fotografia, tu insistindo em não tirá-la naquele dia frio de inverno, quase saindo de quadro, olhando lá para baixo. (Para o que olhava? Para o abismo? O nosso abismo). Não te disse sobre o precipício, sobre os riscos de caminhar rente à linha que separa o tudo do nada? Quem caiu primeiro? Estendemos o braço? Fizemos algum esforço para tentar salvar aquele outro corpo que voava em queda livre?
Ei, entenda. Não quero ser melodramático, mas puxa. Que pena. Tão bonito, não foi? Tanta coisa, não foi? Tantas risadas? E o carinho? Ah, me diz. Me fala sobre o carinho, e a cumplicidade. Corpos em encaixe quase perfeito, num aconchego que me fazia sentir em casa. Na minha, na tua, na nossa casa. Multiplicamos o mínimo, reproduzindo-o a números cada vez maiores.
Ei, olha pra mim, vem cá, me diz, por que esta tristeza? A chuva cai lenta neste asfalto quente, e lentamente procuramos lágrimas que não vêm, já disse. Todo o meu corpo parece falar dessa tristeza, brincar com ela, provocá-la. Meus braços fortemente unidos contra a almofada, minha proteção?
Ei, vem cá, me diz. É a tristeza que me visita, assim, de mansinho, mesmo que contra ela eu apresente tantas armas? É contra a tristeza que me movo, contra ela que levanto toda essa memória. Flashes. Vejo daqui, tu sorri. Mesmo com a tristeza por perto, fazendo-se de companhia, há o sorriso, testemunha de um tudo. Dessa permissão concedida por mim mesmo para acreditar, por todo este tempo, tão longo, tão curto, mas tão tão tão legítimo.
Ei… sabe? Te vejo daqui. E te prepara para os meus clichês. Porque mesmo longe, te tenho. Me tens. É isso, tão simples. Quase posso te alcançar, enquanto minha mão tateia o vazio da ausência. Sim. Ao menos no texto, palavras que se reúnem e fazem sentido para dizer um pouco do que sinto (Ei, nunca terminamos aquele artigo…).
Ei, te vejo daqui, e te vejo sorrindo. Porque há o orgulho das ações não pensadas: mas vividas. E se viveu. Uma vida em comum, ainda que por vezes compartilhada por medos e dúvidas. Uma vida que aconteceu, e não ficou desenhada.
Ei, é sério. Está escuro. Talvez não seja tristeza, afinal. Apenas medo. Olha, escuta o silêncio, escuta o que ele te diz. Não, não estou mais ali, do outro lado do telefone. Ausento-me, desfaço-me, implodo-me, e é tão difícil, ainda que saiba o tanto que há de ti em mim, o tanto que há de mim em ti. E se nos perdemos, e se nos perdermos pra sempre, sim, sabemos que tudo valeu muito a pena desde o dia em que nos achamos.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Lindo. Gosto de textos que me fazem imaginar e logo trazer pros olhos a história. Parabéns!
Excelente texto! Maravilhosas colocações!
Realmente espetacular!
Parabéns!
É isso! Sem mais comentários!
Beijos
Marga
Ah, sorzinho lindo. Que texto mais inspirado. Li para umas amigas minhas e todas te querem…! Sorte de quem te tem, né? bj te amo. Grazi
Chocada… parece ser a minha história… afsssssssss
” E se nos perdemos, e se nos perdermos pra sempre, sim, sabemos que tudo valeu muito a pena desde o dia em que nos achamos.”
Tão perfeito! Tão verdadeiro, tão ‘de todas as pessoas que viveram um amor que acabou”. Um belo texto sobre belos sentimentos.
Confesso, são palavras minhas e de todos os que leem e se identificam… compartilho e divulgo um texto assim tão repleto de interesses em comum… nós, teus leitores, é que agradecemos Paulo Ricardo Kralik Angelini!!!
Bah! Speechless. Que sensibilidade, senhor Paulo Ricardo. Parabéns, cara!
Acompanho teus textos com bastante atenção, mas este me vi obrigado a comentar. Falar de amor é fácil, falar de amor que acaba é difícil, falar de amor que acaba com poesia é um dom. Muito bom! Abraço
Com a alma a flor da pele!!! Excelente!Verdadeiro! Emocionei-me várias vezes ao longo do texto. bju Gilka