Sim, bem sei que quase não há dias belos nesta primavera repleta de tempestades, mas, escuta, presta atenção, é que quase não tenho tido tempo para…
sabe como é quando a gente coleciona os dias em um álbum empoeirado, quase sem perceber que eles já fazem parte de um passado, sem ao menos serem presente, eu sei, bem sei, há tanta movimentação nos shoppings e nos supermercados e de repente os enfeites natalinos, nossa, como eu odeio essas variações do polo norte, papai noel subindo escadinha cheia de neve, papai noel no telhado cheio de neve, e eu sei que esses dias abafados, nesta primavera estranha, têm trazido raios e nuvens pretas que, meu deus, um adamastor furioso a girar e gritar e mandar sua ira que arranca árvores e destelha as casas e provoca lágrimas, não, entenda, preste atenção, ocorre que mesmo essas intempéries são notícias de televisão para mim, simplesmente porque estou sempre atrasado, há tanto a fazer, há sempre a fazer, e eu não consigo descansar nem quando tudo está quase sendo finalizado, pois a certeza de que há um outro tanto que se aproxima como aquela nuvem negra provoca trovejadas internas que, a sério, nem sei como explicar, e esse monte de energia que estoura na rua é como se
como se
eu sei, sim, eu sei, quase não há dias belos nesta primavera, mas, poxa, são dias que passam lá fora, e há sempre alguém que se senta no banco do parque
a olhar
a pensar
em nada
e dos parques só tenho notícia quando também passo, agora sim, correndo, não, não mais metaforicamente, ou também metaforicamente, porque a corrida para mim é a literalização dessa imagem que construo, e que me desagrada, desse alguém que nunca pode, que talvez na próxima segunda, e agora, observe, agora o ano escoa e a gente percebe que não, não é possível, colecionador de horas e dias e meses já guardados neste álbum absurdo
só sei que há tanta gente que eu queria dedicar-me
sorrir
assim
despretensiosamente
sem olhar no relógio
não há dias belos nesta primavera, quente, úmida, intempestiva, e mesmo que os houvesse, não seria eu a testemunhá-los, triste figura a colecionar trocados neste sem-tempo que machuca
apenas sei que não há graça alguma em repetir a história e é por isso que chega o chega
é hora de respirar bem fundo e pensar
em nada
assim.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Meu Deus!!!
Ao ler teu texto era como se estivesse lendo a interpretação literal de meus próprios sentimentos. A angústia do tempo nunca ser suficiente. De ver o mundo passar lá fora e eu não estar participando dele. Chuvas e tormentas me deixando imobilizada, pois percebo o quanto somos pequenos e indefesos diante dessas forças.
Adorei te ler, pois me vi nessas linhas e, por incrível que pareça, já não me sinto tão só.
Beijos e de novo parabéns.
Marga
Paulo revelas um coletivo quase que tresloucado que ressurge a cada final de ano.
Lembro da sensação… e como já não corro tanto,observo e me pergunto:- Onde vamos mesmo com tanta pressa nessa primavera chorona?
Parabéns pelo texto!
bju Gilka