Silêncio. Quando as palavras já não conseguem ser ditas. Quando o silêncio já não é mais aquele local tranquilo da cumplicidade, mas sim um espaço arenoso de falta, de medos, de frustrações.
Um casal em um restaurante. E o silêncio. Um abismo habita entre a dupla. E a queda. É o fim de um relacionamento. Vicenta N´Dongo e Álex Brendemühl, bons atores de Barcelona, são dirigidos por um queridinho do cinema chileno, Matías Bize, jovem talento nascido em 1979. Depois de três filmes de sucesso e de vários prêmios, Bize fez este LO BUENO DE LLORAR em toque de caixa. Com ares de filme amador, rodado em apenas 11 dias e editado em 4, a película, uma co-produção chilena-espanhola, não chega a engrenar e mais parece cinema experimental.
Ainda que haja um toque de sensibilidade, perceptível em boas seqüências, como a do restaurante, a do carro estacionado e a da antecipação da comunicação vazia entre eles em um futuro próximo (o final do amor que um dia foi), a mão pesada do diretor, também roteirista, em seu esforço de conduzir o filme com vistas a realizar uma obra-prima, transforma LO BUENO DE LLORAR em um amontoado de clichês perdidos em intermináveis planos-sequência, muitas vezes sem razão de ser. A pretensão é o calcanhar de Aquiles da obra, que abusa do artificialismo. Apesar de curto, o filme é enfadonho e absolutamente esquecível.
Os personagens são rasos, apesar do esforço do elenco, e em nenhum momento o público tem empatia com eles. De qualquer modo, a bela trilha sonora e os diálogos que faz o filme com BEFORE THE SUNSET, com Ethan Hauke e Julie Delpy, valem uma conferida, ainda que dificilmente o filme entre em cartaz comercial no Brasil.
No Chile, passou praticamente despercebido, restando agora a ser exibido em mostras sobre o novo cinema chileno. Os grandes amores que se acabam, apesar de um assunto batido, é tema crucial em nossas vidas, capazes de gerar vasto material que, eventualmente, pode proporcionar belos filmes, mesmo originais e com uma estética diferenciada. Não é o caso de LO BUENO DE LLORAR. Rodado em uma Barcelona sombria – o que vai ao encontro da decadência deste relacionamento, fugindo da cidade luminosa que outros cinemas já mostraram –, especialmente no Bairro Gótico, o lirismo e a poesia perdem para a obviedade de um discurso que aperta na mesma tecla: onde foi que erramos e por que estamos aqui, agora. Em silêncio.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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