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categoria: CONTEXTO

INTELECTUALIZANDO O QUE NÃO DEVE SER INTELECTUALIZADO

Tenho percebido uma série de teses acerca dos mais ilustres intelectuais do momento: os participantes do Big Brother Brasil. Na verdade, do já acabado BBB 10. E chama a minha atenção como um programa de caráter meramente de entretenimento acaba por receber uma aura de laboratório da vida real. E pior: jornalistas e ditos formadores da opinião pública mergulham no mundo dessas pessoas comuns tratando-os como grandes porta-vozes de um grupo específico, ou de uma nação.

 

Curioso, percebo como essa participação dentro de um jogo televisivo – nossas antigas gincanas em um momento de confinação absoluta – recebe uma infinidade de comentários de um público cada vez mais ligado na internet, capaz de trocar ideias e de tecer opinião a respeito de qualquer coisa, e como, deste modo, essa grande massa de frases internéticas acabam sendo usadas como uma espécie de “termômetro avaliativo” de uma nação em estado de semiguerra.

 

Digo isso porque já li que haverá uma tendência a um crescimento na intolerância, especialmente relativa à escolha sexual, por conta da vitória do gaúcho Marcelo Dourado. Li, estarrecido, ativistas gays dizendo que, ainda que o próprio não soubesse, enquanto confinado, dessa legião de seguidores cruéis que ele tem (o que por si só é uma afirmação generalizadora e sexista), ele é um “líder do mal” simplesmente por reunir a simpatia dessa “gente retrógrada” oriunda de um tempo medieval, apaixonados por seu estilo brucutu.

 

Caramba! Menos, gente, menos! Não percamos o foco. Não transformemos esse BBB em oráculo da sociedade. Não o façamos muito mais do que ele é: simples entretenimento.

 

A despeito de toda a maravilhosa estrutura que este último BBB trouxe para a cena, com uma edição divertida e pescando do comportamento dos brothers ingredientes novelescos, o BBB não tem e nem merece esse caráter transcendental. O que vivemos, hoje, é um momento de instantaneidade: o fulano e o beltrano possuem twitter, blog, ou respondem em fóruns, em respostas automáticas das páginas de discussão, enfim, essas pessoas que, tempos atrás, não tinham voz na grande mídia, agora o tem. E isso assusta alguns, pois ali vemos certas atrocidades, certas generalizações, certos preconceitos que refletem, sim, a diversidade de pensamento do brasileiro, para o bem e para o mal.

 

Nunca escondi de ninguém que me divirto assistindo ao Big Brother, e assisti com atenção a essa última edição. Marcelo Dourado não é um exemplo de ser polido ou educado. O cara arrota, solta flatulências, grita e diz pequenos absurdos, mas em nenhum momento pareceu-me homofóbico. É um cara tosco, ou assim construiu seu personagem, um lutador profissional que levou muita porrada na cara e que nunca escondeu de ninguém que isso o tornou mais bruto, mais rude. Mas não nos esqueçamos de que o Marcelo Dourado que ali aparecia era um jogador. E por isso ele mereceu vencer. Mereceu vencer por ter sido coerente dentro do jogo o tempo inteiro. Em contrapartida, tivemos um desfile de personagens mais liberais, alguns dos quais assumidamente gays, que se firmaram mais pela excentricidade (um personagem do personagem de si mesmo), pelo lado divertido, de fazer os outros felizes, do que pela coerência em buscar aliados (trocavam confidências de fidelidade partidária a cada 2 dias, vide Dicésar) e muitas vezes traíram-se por uma língua tão ferina quanto. Também esses que se dizem vítimas de perseguição dentro do programa desfilaram um sem número de preconceitos, de visões estereotipadas, de gracinhas ferinas, especialmente contra alguns integrantes não-fashions na casa. Significa dizer que, nesta edição, eram os gays personagens repletos de futilidades, permeados por fofocas, cínicos que alisavam o outro e depois falavam mal dele, diferentemente daquela em que havia um Jean, este sim, também homossexual assumido, ético, correto e com coerência dentro do jogo (tanto que venceu, e este mesmo “povo” hoje considerado “retrato de homofobia” deu o prêmio a um gay). Ou seja, quem disse que o gay deve se identificar com o gay só porque ele é gay; ou que a mulher deve se identificar com a mulher por ela ser mulher; ou o negro; ou o heterossexual, independentemente do caráter mostrado (na TV, bem verdade)? Então o Big Brother seria uma espécie de Arca de Noé em que espécies do humano são colocados e são eles os únicos remanescentes desta humanidade? Que idiotice.

 

A bem da verdade, querer intelectualizar um programa televisivo sem este caráter é quase um tiro no escuro. Porém, irrita-me sobremaneira ler por esses pagos internéticos barbaridades de ditos críticos televisivos (sim, isso existe) de uma iminente guerra civil por conta da vitória de um Marcelo Dourado. Talvez alguns digam que ele poderia ter dado o exemplo e mostrado como um heterossexual pode, sim, ser mais maleável; talvez alguns digam que ele não deveria arrotar e cuspir a cada dez minutos… De qualquer modo, este é o cara que venceu o prêmio com 60% das intenções de voto de um paredão histórico. Ou seja, o cara atingiu o seu objetivo.    

 

E antes que me perguntem, eu não torcia diretamente para ele. Eu queria muito que a sensacional, paranoica, divertida, barraqueira olha-no-meu-olho Lia vencesse. Mas se fosse ela, mais um sem número de teses seriam escritas a seu respeito.

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “INTELECTUALIZANDO O QUE NÃO DEVE SER INTELECTUALIZADO”

  1. Paulo

    Como sempre goste da tua análise sobre esse “ecossistema” chamado BBB. Não tenho muito a acrescentar, pois nunca assisti e não pretendo no futuro assistir a nenhum desses programas, no entanto, assino embaixo quando afirmas que esse é apenas um programa de entretenimento e NADA MAIS!

    Existem muitos outras coisas para se criticar e analisar e o BBB defintivamente não está entre elas.

    Abraço
    Margarete

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | April 1, 2010, 17:58

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