Termina mais um Festival de Cinema de Gramado. Outra vez, o site argumento.net fez uma cobertura completa do evento. Durante toda a semana, estivemos presentes nas noites oficiais, nas reprises, nos bastidores do mais glamoroso festival de cinema do Brasil. Sentamos nas poltronas do Palácio dos Festivais e vivemos todo o tipo de sentimento: da emoção ao tédio, do deslumbramento à indiferença.
O que fica, fazendo um balanço do festival, é a constatação de que a mostra de longas-metragens nacional de 2008 foi a melhor em anos, por conta de, ao menos, três filmes muito bons: NOME PRÓPRIO, JUVENTUDE e A FESTA DA MENINA MORTA.
Também a mostra de curtas foi muito superior a outros anos, com filmes de qualidade incontestável como DOSSIÊ RÊ BORDOSA, BOOKER PITTMAN, BLACKOUT, SUBSOLO, O PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS.
Já a mostra de filmes estrangeira foi a mais fraca dos últimos tempos. Entre os competidores, PERRO COME PERRO reinou soberano, incomparavelmente superior a todos os demais. Além dele, POR SUS PROPRIOS OJOS também possuía algumas qualidades.
Contudo, tendo em vista que não sou jurado, fico apenas com a minha modesta opinião.
Com relação aos premiados da mostra brasileira, concordo com quase todos os prêmios concedidos pelo júri oficial. As três obras citadas acima dividiram todos os prêmios, deixando NETTO, VINGANÇA e PACHAMAMA sem nenhum troféu.
O melhor filme foi o menos premiado dos três: NOME PRÓPRIO, excelente trabalho de Murilo Salles, recebeu ainda o de atriz, pela deslumbrante perfomance de Leandra Leal, e Direção de Arte, esse escolhido por uma espécie de júri popular. Na minha opinião, o filme de Murilo mereceria mais dois kikitos: o de melhor roteiro e o de montagem.
JUVENTUDE caiu nas graças de Gramado. Aplaudido em cena aberta e, depois da exibição, ovacionado por uma platéia de pé, o filme de Domingos de Oliveira recebeu os kikitos de direção e roteiro, para o próprio Domingos, uma simpatia de pessoa. Além disso, dois prêmios especiais, um de qualidade artística pelos atores (ótima lembrança) e outro para montagem.
Por fim, a obra mais inventiva e visceral do Festival, A FESTA DA MENINA MORTA, saiu-se como o grande vencedor da noite, com 3 kikitos: melhor ator (outra enorme justiça para o impressionante Daniel de Oliveira), fotografia (trabalho maravilhoso de Lula Carvalho) e Especial do Júri. Ainda recebeu três prêmios especiais: melhor filme e música segundo o júri popular e melhor filme segundo a crítica. Matheus Nachtergaele merecia ser reconhecido com o prêmio de melhor diretor, pela sua promissora estréia e pela segurança com que dirigiu o maravilhoso elenco. Se ainda existisse, o filme ainda mereceria levar os prêmios de coadjuvantes para Cássia Kiss, em arrasadora participação, e Juliano Cazarré.
Já o júri dos latinos brindou o excelente colombiano PERRO COME PERRO e o irregular argentino POR SUS PROPRIOS OJOS com todos os kikitos. Para o primeiro, melhor diretor, ator para Marlon Moreno e fotografia. Para o segundo, melhor atriz (a querida Ana Carabajal), especial do júri e roteiro. Além disso, o colombiano recebeu o prêmio da Crítica e o argentino o Júri Popular. Porém, contrariando todas as expectativas, mas também confirmando uma tradição em Gramado (filmes que ganham tudo não recebem o kikito de melhor filme), o chatíssimo COCHOCHI recebeu um único kikito, o de melhor filme. A modesta produção mexicana recebeu ainda os prêmios especiais de excelência de linguagem e de qualidade artística.
A incoerência do júri oficial é premiar duas produções com todos os troféus, mas não conceder o de melhor filme. Absolutamente inexplicável.
Finalmente, com relação aos curtas, o vencedor da noite foi o enigmático AREIA, que recebeu os kikitos de fotografia, atriz (para Malu Galli) e filme. Contudo, o mais premiado foi o belo BOOKER PITTMAN, que recebeu ao todo 5 prêmios: o kikito especial do júri, mais o prêmio da Crítica, direção de arte e música (esses concedidos pelo júri popular), e o de aquisição do Canal Brasil. O divertidíssimo DOSSIÊ RÊ BORDOSA recebeu dois prêmios: kikito de melhor roteiro e prêmio de montagem. SUBSOLO recebeu o prêmio de direção, para Jaime Lerner, e Augusto Madeira melhor ator por BLACKOUT e NOITE DE DOMINGO.
Com relação à festa de encerramento, o palco nunca esteve tão bonito. A vinhetagem também estava caprichada e a cerimônia foi enxuta. Quase não houve falhas… eu disse quase. Como tudo pode acontecer em Gramado (ninguém se esquece da lâmpada explodindo em cima de uma Letícia Spiller apavorada), houve queda de energia em meio à premiação. A platéia ressonou um ohhhhhhhhhh.
Enfim, o tapete vermelho começou a ser enrolado. Tudo volta ao normal à pacata cidadezinha que se transforma num formigueiro durante a semana e, em especial no último final de semana do evento. Saem os globais, gente que nada tem a ver com o cinema mas que recebe o entusiasmo de uma multidão faminta por celebridades, e entram os velhos conhecidos da cidade, que se cumprimentam no super e na farmácia.
Gramado perde o foco de centro de atenções e volta a ter o charme de cidade pequena.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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