Qual é, de fato, a verdade sobre a existência de apenas uma reta entre dois pontos? São quantos os possíveis caminhos entre esses dois pontos?
Uma grande amiga minha partiu para Lisboa. Na véspera, decidimos assistir a JEAN CHARLES, filme de Henrique Goldman, nova estreia do cinema brasileiro. Muito mais do que uma história sobre o crime que chocou o mundo pelo erro absurdo da polícia britânica, a obra de Goldman é um delicado retrato sobre sonhos e fracassos. Sobre gente que parte e busca. O que mesmo?
Selton Mello tem sua melhor atuação em anos, porque se despe de sua persona Selton Mello e consegue fazer com que vejamos, ali, um sonhador brasileiro que atravessa o Atlântico em busca de tempos melhores. O curioso é que o próprio ator confessou estar em crise quando das filmagens, justamente por sentir-se sempre repetindo um mesmo personagem.
Selton Mello não levou muita fé no projeto, e talvez muitos também tenham torcido o nariz na transposição do caso para as telas do cinema. Eu me incluo. Pensei já na construção de um jogo maniqueísta: um brasileiro cheio de sonhos trucidado por uma polícia de malvados.
Grata surpresa, o crime é mero coadjuvante do filme. A história inicia com a chegada de Jean em Londres com sua prima, interpretada com sutileza e sensibilidade por Vanessa Giacomo. Jean, já com visto de residência, convence a prima a dividir o apartamento com Alex (vivido pelo divertido Luis Miranda) e Pati (a prima na vida real de Jean, Patrícia Armani), três meses antes do crime, e antes dos atentados terroristas nas estações de metrô londrinas. O diretor teve ainda mais força para realizar o filme depois que a BBC saiu do projeto, uma vez que esta pretendia fazer uma espécie de expiação da polícia britânica, um mea culpa justificado, fato que não foi aceito por Goldman. A obra mostra um brasileiro como ele, o diretor, há quase três décadas fora do Brasil, e como centenas de milhares espalhados pelo mundo, gente que constrói uma vida nova, gente que não esquece quem deixou pelo caminho, gente que nunca mais quer voltar, gente que risca no calendário, em regressiva, aguardando o retorno. O eterno retorno.
É este o maior mérito do filme, essa tão falada diáspora, esse movimento que é típico dos países subdesenvolvidos, a perseguição de um sonho em terras mais desenvolvidas. No filme é Londres, mas poderia ser Paris, Barcelona, Tóquio, Moscou, Lisboa. Não importa a distância, há sempre a necessidade urgente de fechar a mala e acreditar que é possível redefinir os rumos.
Jean Charles planejava uma viagem de mochila pela Europa, e foi interrompido pela polícia que o confundiu com um terrorista, morador do mesmo prédio em que vivia. E quantos de nós não queremos também pegar a mochila e descobrir essas novas paragens? E quantos de nós não somos também interrompidos?
A bela trilha sonora, a divertida participação de Sidney Magal (em uma referência a Zeca Pagodinho, o verdadeiro cantor que viveu uma situação real com Jean, mas que estava indisponível para gravar o filme), o horror do desmoronamento de todos os sonhos de Jean com a forte cena do assassinato, tudo contribui para uma hora e meia de emoção. Lágrimas escorrem na plateia, uma dose de realidade dentro do mundo de faz-de-conta que cada um constrói para si mesmo. Faz de conta que tudo vai dar certo.
Não deu para o Jean. Porém, talvez tenha dado certo para tantos brasileiros que passam o maior sufoco, enfrentado preconceito, cara feia e a saudade, lavando banheiro ou estudando uma nova língua… Expatriados por opção. Ou quem sabe não.
Impossível não pensar em meus amigos que se foram para o exterior. Impossível não sentir o coração apertado na cena em que Jean fala com a mãe, desliga o telefone, e chora.
Eu já passei por isso. Muitos já passaram por isso. Quando a gente está longe, e tudo está bem, mas, ao mesmo tempo, faltam essas pessoas do nosso convívio que nos tornam melhores, falta o nosso chão; todavia, criamos também novas raízes.
A eterna incompletude. O clichê de que a felicidade nunca está onde estamos, está sempre em outro lugar. Em outro lugar.
Minha amiga partiu para Lisboa. E lá, certamente me encontrará, porque também eu estou ainda por lá. Caminhando no Rossio, nas ruelas do Bairro Alto, ouvindo o fado da Alfama, sentindo o cheiro do mar. Do tempo em que eu morava na Europa, tempo em que engolia a saudade e me deslumbrava com as pequenas coisas novas que eu descobria.
E a melancolia invade a sala de cinema. Mais uma amiga minha parte, em busca de seus sonhos. Enquanto isso, eu pego o meu Chevrolet, retorno a minha casa, viajo, lembro-me de Pessoa, de Jean, da Dini, da Lara, do Fernando, da Silvia, da Julia, de mim. Simplesmente me permito chorar.
“À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz…”
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras.
Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si.
Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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Paulo:
Se as tuas resenhas fossem apenas resenhas elas já seriam ótimas. No entanto, fazes delas sempre algo mais, algo sutil, quase como poesia. Lindo!
As sensações que descreves todos as conhecemos mas, poucos, muito poucos, conseguem narrá-las com tanta delicadeza. PARABÉNS!!!!
Beijos
Margarete
Olá, gostei muito do teu comentário…gosto de ler de pessoas que vivem com palavras ou as palavras. Agora vivo em Lisboa também, já há 4 anos. Estudei na Universidade Nova, Letras e moro no Rato. Me identifiquei muito com tudo que escreveu. Pena que ainda nao encontrei o filme por algum cinema por aqui. Um grande abraço.