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categoria: CONTEXTO

COM SEUS BOTÕES

Ela reclamava. Brigava, xingava. Depois começava a murmurar e entrava num diálogo rápido: “Ah, não, eu não acredito nisso… Por que isso, meu Deus…?”

Era jovem, bonita, bem vestida. Estudante da UFRGS, constatação óbvia, já que se encontrava no Campus do Vale, de mochila “ufgrsiana” e tudo. Todos olhavam, assim, de soslaio, para a menina que brigava. Sozinha.

 

Confesso que, ao ouvir a “briga”, fiquei constrangido. Ela estava bem atrás de mim, ali onde todos se amontoam numa anárquica (inusitada contradição) ordem, em pleno ambiente acadêmico, naquele espaço reservado a quem espera os vários ônibus que embarcam e desembarcam no Vale. Um bolo de gente, próximo ao meio-dia. O ônibus chega e… sai da frente! Todos correm ao mesmo tempo, um absurdo que só piora o mau humor de quem enfrenta ônibus lotados e fétidos (ar condicionado – janelas fechadas – cheiro muito estranho no ar).

 

Sei, me desvio do assunto. Voltando.

Estava ali, quando ouvi esse início de briga. Claro, pensei num “pas de deux”. Choramingos. Um casal brigando, mas só ela fala. Discretamente, dei uma espiada e… ops. A moça está só?!? Tento achar algum ponto negro, espécie de fone móvel para celular, algo minúsculo perto da boca, dentro do ouvido, quem sabe escondido por entre a vasta cabeleira loira. Nada.

 

E ela continua a reclamar e choramingar em voz alta, contrariando todas as regras de que não se fala, assim, em alto e bom tom, pelo menos não no meio de universitários tão variados. O risco é a piada. Alguns rapazes espinhentos começam a rir, descaradamente. Ela nem bola, segue seu monólogo interior exteriorizado. “É tudo o que eu não queria, né… que saco…”

 

Não sei, mas penso nos clichês de sempre, na correria, no stress da falta de grana, no pânico de se sentir só… alguma coisa que justifique aquela guria aparentemente tão normal quebrando a regra. Ok, a gente às vezes fala sozinho, mas frases, reclamações. Algo curto e baixinho. Breve. Um desabafo.

 

Mas ela me desafiava com seu longo texto. Lamúria constante. Eu pensava: tá reclamando do ônibus que não vem? Do namorado que a traiu? Da namorada com quem brigou? Da mãe? Do pai?

 

E ela saiu dali de trás. Entrou, calada, num Campus Ipiranga e me deixou lá, sem saber o que pensar, sem saber se continuou conversando com seus botões dentro do coletivo.

 

Foi. E não adianta que uns dois dias depois eu tenha encontrado, numa mesma sexta-feira, três pessoas a falarem sozinhas; três mendigos, a seu modo, a conversarem com suas sombras: uma mulher vestindo touca, em pleno calor de dezembro, na avenida Ipiranga, rindo e vai-não-vai atravessar a rua, cantando, falando; um senhor sentado na República, em monólogo intenso, no meio da conversa (“…daí… e depois o cara né…”); e um outro homem na Alberto Bins, no centro, rindo desvairado e conversando com seus trapos. Não adianta ter tido outras evidências de que ou prestamos mais atenção nos ditos “loucos” hoje em dia do que em tempos passados, ou eles andam se proliferando com mais intensidade, filhos da crise, do medo, da solidão… Não me sai da cabeça a menina que discutia com ela  própria. Rosto sério, cheio de interrogações, a me colocar uma delas, bem grande, bem no meio da minha testa.  

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

2 comentários para “COM SEUS BOTÕES”

  1. Paulo:

    Adorei o texto! Não sei se é politicamente correto, mas estou rindo até agora e sabe porque? Eu falo horrores sozinha. No carro, na rua, no super, enfim. É claro, que não me dou conta, só mesmo quando percebo os olhares dos outros sobre mim. Portanto, podes me anexar a esse rol de desequilibrados que andam pelas ruas de POA.

    PARABÉNS pela forma divertida e respeitosa que descreveste a cena. Sei que posso contar contigo quando topares comigo falando sozinha na rua.

    Beijos
    Marga

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | February 25, 2010, 18:35
  2. Paulo,
    Que legal! Não é de hoje que sou sua fã… muito bom mesmo. Foi ótimo pra relembrar as tuas palavras…
    beijo

    Lívia

    Posted by Lívia Guilhermano | March 1, 2010, 18:06

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