// você está lendo...

categoria: CONTEXTO

BONECA SEM MANUAL

Eu era sem primavera/ Dessas que o ano não principia/ Poesia não me dizia/ Ternura em mim não havia/ Faltava encanto na melodia/ Não parava uma saudade/ Velha de pouca idade/ Ia vivendo a necessidade…

Alguns anos atrás, estava uma amiga minha que vive em Londres visitando Porto Alegre. Numa das noites na capital gaúcha, havia o show de uma tal de Vanessa da Mata, no Theatro São Pedro. Na época, ela era uma voz que lembrava a de Marisa Monte e tinha um mega hit na novela das oito: Nossa Canção. Minha amiga não quis arriscar e ir ao show, afirmando que tinha pouco tempo para ficar no Brasil e não assistiria a uma cantorazinha que, em dois, três anos, ninguém mais saberia quem era.

Pois é, minha amiga errou completamente a previsão.

Alguns supersucessos radiofônicos depois (Não me deixe só; Ai ai ai; Boa sorte), muita produção em cima e um inegável talento rasgando os palcos brasileiros, e Vanessa da Mata firma-se como uma das grandes estrelas da nossa música nacional. E veja bem, preste atenção (ok, sorry…), mas para ser estrela não basta ter uma boa voz. É preciso saber administrar um sucesso inicial, fazer com que ele traga novos e, principalmente, conseguir construir uma carreira respeitável, e aí também entra uma visão certeira na escolha tanto do repertório quanto dos parceiros de trabalho. Aliado a isso, carisma no palco é essencial. Pronto.

Um ou dois anos depois do tal show no São Pedro, esnobado por minha amiga londrina, fui a um espetáculo de Vanessa no Teatro da UFRGS. A platéia saiu encantada com a forma simples com que Vanessa se torna grande no palco.

Porém, alguns shows mais tarde, é inegável o amadurecimento da artista em todos os sentidos. A começar pela voz: Vanessa está cantando como nunca. Tem uma voz cristalina, límpida, afinadíssima. Se antes se notava uma certa ansiedade em brincar com essa voz, provocando derrapadas, agora a voz sai inteira, obedecendo a todos os seus comandos. O show SIM, com casa cheíssima no Teatro Borboun Country, em Porto Alegre, mostrou isso.

Vanessa entrou no palco já ganhando a partida de 2 x 0. Ovacionada, vestia uma capa por cima do vestido, girando a sua vasta cabeleira ao melhor estilo pomba-gira. Dançando com sensualidade, talvez inventando uma técnica de sambar em slow-motion, Vanessa hipnotizou a platéia. Em quinze minutos, o placar já era de goleada.

Você conta por aí/ Da nossa felicidade/ Mas nem todos podem ouvir…

O desfile de sucessos (sempre tem uma que a gente nem se lembrava que era dela para dizer: Ah, adoro essa música. Cito aqui a belíssima Música: Se voltar desejos/ Ou se eles foram mesmo, /Lembre da nossa música, / Música./ Se lembrar dos tempos,/ Dos nossos momentos,/ Lembre da nossa música,/ Música.), apoiado com uma banda formada por músicos do primeiro escalão da MPB (basta dizer que David Moraes era o dono da guitarra), garantiu uma noite deslumbrante. Destaque também para a iluminação, sutilmente transformadora, camaleando Vanessa e o palco de acordo com o momento do show.

Eu tava rezando ali completamente, um crente, uma lente, era uma visão/ totalmente terceiro sexo, totalmente terceiro mundo/ terceiro milênio/ carne nua, nua, nua, nua, nua / era tão gozado /era um trio elétrico, era fantasia, escola de samba na televisão
Momentos fantásticos não faltaram. Primeiro, com as canções que crescem enormemente no palco, como a Saltimbanca História de uma gata e como Eu sou Neguinha, ainda melhor na voz de Vanessa, além das óbvias Boa Sorte (claro, sem Ben Harper), Fugiu com a novela, Onde ir, Delírio, Amado, Alegria, Não me deixe só (a saideira), Aiaiai (no Bis). Vanessa ainda ousou e brindou a platéia com a linda Nossa Canção, num novo arranjo que lembra um tango, uma milonga, e releu dois clássicos da MPB: Veneno (de Marina Lima) e Por enquanto (Cássia Eller), esta última à capela, arrepiando a platéia. Ainda pegou o banquinho, o violão e cantou a bonitinha Minha herança: uma flor.

Por falar nisso, a presença de Vanessa no palco também garantiu boas conversas com a platéia (que, aliás, estava falante como nunca, inclusive tirando sarro dos chiados do produtor carioca quando do anúncio, pouco antes do show, da equipe do espetáculo). Mais uma vez, a pantaneira contou a divertida história da tia, retratada em Joãozinho, assumindo seus cabelos encaracolados, além de outras conversinhas amigáveis.

A lamentar, apenas, que o Teatro Bourbon Country ainda não siga a civilizada tendência mundial de não permitir que retardatários entrem num espetáculo. Sim, senhor, todos sabemos que triste deve ser pagar e, por alguma razão, perder o espetáculo, mas fazer o quê?

O que definitivamente não pode ser feito é colocar uma lanterna no rosto daqueles que chegaram pontualmente, fazer uma fila inteira se levantar numa ola involuntária e mal-humorada, para que essas pessoas possam esfregar seus traseiros vitoriosos com mais de meia hora de atraso. Ridículo.

Enfim, pequenos detalhes que nos fazem perceber como ainda estamos aquém dos grandes centros de cultura do mundo. Visão pequena, essa, simplinha: pagou, entrou. Para não se incomodar com os atrasadinhos, vamos incomodar todos os que estão extasiados com a Vanessa.

Mas ela não tem culpa. E graças a ela, saí do teatro esquecido desse constrangimento, com aquela boa sensação de ter presenciado uma artista em ascensão que merece toda a ovação que recebeu. Grande noite!

Sinto absoluto o dom de existir, não há solidão, nem pena / Nessa doação, milagres do amor / Sinto uma extensão divina…

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “BONECA SEM MANUAL”

Deixe um comentário