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categoria: CONTEXTO

AUSÊNCIA

Foi numa quinta-feira que ele percebeu, pela primeira vez. Fingiu não notar. Escovou os dentes e passou o fio dental, sem olhar outra vez. Não queria ter a certeza. Apenas deixaria que tudo ficasse ali, escondido, no reino da imaginação.

Contudo, durante o dia inteiro aquilo o atormentava. Não tinha descanso. Precisava tirar a prova dos nove. Será que…?

Bobagem. Seguiu a fazer o que todo dia fazia, em uma repetição que aglomerava seus dias em um bloco de tédio. Tão comuns. Analisava alguns processos. Carimbos. Assinaturas. Carimbos. Outra assinatura.

Reuniu as pastas e foi até a sala dos arquivos. Por ali, percebeu que também havia um. Tremeu. Gelou. Em cima de um armário, no canto da sala. Postou-se à frente. Olhos fechados. Decidiu contar até 10 antes de abri-los. A regressiva lembrou todas as consequências que aquilo trazia. Procuraria um médico? Um médium? Contaria a alguém? Estaria desenganado?

Foi quando abriu. Nada. Absolutamente nada. Um frio percorreu por todo o seu corpo. Isso não é possível. Voltou para a sua mesa. Todos pareciam ignorá-lo. Percebeu que não havia trocado sequer uma palavra com alguém. Paciência, nunca fora homem de diálogos. Sentou-se a analisar mais alguns processos. Dona Fulana veio e pegou as pastas de cima de sua mesa. Audácia. Porém, tão cansado estava que decidiu não reclamar.

Hora de ir embora. Entrou no elevador. De costas para o. Viro ou não viro? Virou-se. Nada. Foi quando riu. Como pode alguém perder seu reflexo no espelho? Ou seria realmente imaginação?

Sim, procuraria um médico. Um homem não pode não possuir um reflexo no espelho. Isso não. Ainda mais em tempos vampirescos. Bobagem.

Chegou em casa. Um cheiro desagradável fez lembrá-lo de recolher o lixo. Jogou a pasta em cima do sofá, ligou a televisão. Foi ao quarto trocar de roupa. Surpresa. Havia alguém deitado em sua cama. Recuou, assustado. Não conseguia gritar. Chamar a polícia. Chamar algum vizinho. Nada. Imbuído de uma coragem que nem ele conhecia, puxou a coberta.

Só então percebeu.
Ali estava ele, ainda dormindo.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

3 comentários para “AUSÊNCIA”

  1. Lindo texto. Escreve bem demais cara! Abração do André

    Posted by André M. | June 5, 2012, 0:48
  2. Muito Bom, como sempre. Que bom que o deixaste dormindo… bjus, Gilka.

    Posted by Gilka Coimbra | June 6, 2012, 10:41
  3. Muito legal… Fantástico + espelho… ao que parece não serve só para nós…

    Posted by Humberto | June 11, 2012, 8:54

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