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categoria: CINEMA NACIONAL

APENAS O FIM

APENAS O FIM tem a câmera exclusivamente voltada para um casal de personagens, o que remete ao cinema francês dos anos 60. É todo filmado em uma universidade, palco de manifestações políticas nos anos 70. Desfila uma série de referências pop dos anos 80 e 90 e, de quebra, mistura tudo isso com uma rapidez vertiginosa típica do século XXI.

 

Este é o pequeno milagre de Matheus Souza, roteirista e diretor deste filme BO brasileiro que caiu nas graças do público carioca. Merecidamente. Impossível não se identificar com alguma – ou muitas – das tiradas desse casal que se encontra para a derradeira despedida.

 

Ele está a caminho de uma prova. Ela precisa conversar. Eles têm uma hora. Ela vai embora. Para onde, ninguém sabe. A partir disso, o casal faz um pequeno inventário de fatos sérios e de bobagens, todos com um invólucro de cultura pop. Da Vovó Mafalda a He-Man, de Michael Jackson a The Strokes, passando por Pokemon, Tamagotchi e mais uma carreira de monstros japoneses, o discurso sempre divertido, autorreferencial, procura encontrar na “arte” um parâmetro, já que as referências dessa juventude estão cada vez mais apagadas.

 

É assim que os excelentes Érika Mader e Gregório Duviver constroem um dos casais mais bacanas da recente história do cinema brasileiro. Bem verdade que ganharam de brinde diálogos inteligentes, palavras que conseguem de imediato a simpatia do espectador.

 

A conversa do casal é muitas vezes registrada em longos planos-sequência, que são entremeados por um flashback em preto e branco, modernoso, trazendo momentos impagáveis do casal.

 

A câmera próxima, a discussão sobre relacionamento, faz lembrar Domingos de Oliveira. Obviamente, este é um filme que também tem o gosto de Nick Hornby, Tarantino sem sangue, Kevin Smith, JUNO, Quadrinhos. É uma salada de referências. Por vezes pode-se pensar: existe gente assim, que pega emprestado tudo o que há no mundo da fantasia para dar sentido para a sua própria história? Sim, existe.

 

E é bom que exista. Porque por baixo desta casca intertextual, no fundo do fundo desses personagens nerds, existe vida, existe dor, existe a falta. Na busca de alguma coisa, ela partiu. E deixou o personagem esquisito que usa os óculos do avô, e nós, plateia cúmplice, de corações partidos.

 

Simples, eficiente, e improvavelmente poético. APENAS O FIM é uma lição em muito cinema pretensioso feito por aqui.

 

 

 

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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