Uma senhora idosa com apagamentos de memória pede a um garoto que guarde as suas relíquias, para ela nunca se esquecer de quem tinha sido. O belo curta-metragem DONA CRISTINA PERDEU A MEMÓRIA já trazia em seu bojo a questão da identidade: somos mesmo quando não sabemos?
O menino cresceu. O ator do curta, Pedro Tergolina, agora com 15 anos, é o Daniel do primeiro longa-metragem da diretora gaúcha Ana Luiza Azevedo, ANTES QUE O MUNDO ACABE. É mais uma obra da inusitada safra de (belos) filmes brasileiros sobre o mundo adolescente, aliás temática sempre pouco desenvolvida no nosso cinema. Depois dos ótimos OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE, de Esmir Filho, AS MELHORES COISAS DO MUNDO, de Laís Bodanzky, e do correto SONHOS ROUBADOS, de Sandra Werneck, faltava mesmo a nossa sempre jovem Casa de Cinema de Porto Alegre lançar o seu. Vale lembrar que o grupo já possui clássicos entre os teens: HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES, O HOMEM QUE COPIAVA, MEU TIO MATOU UM CARA sempre provocam risadas (e até salva de palmas) quando os exibo em DVD para os meus alunos adolescentes.
O clima interiorano de ANTES QUE O MUNDO ACABE é quase o mesmo do filme de Esmir Filho, mas a familiaridade termina por aí. O filme de Azevedo não envereda pelo estranhamento. Aposta em um diálogo mais direto com a plateia, e consegue. Apoiada por um time de primeira (Paulo Halm, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil) na adaptação da obra homônima (de grande popularidade nas escolas gaúchas) de Marcelo Carneiro da Cunha, Ana Luiza e parceiros escrevem com uma simplicidade comovente, criando diálogos saborosos e ainda por cima garantindo uma profundidade enternecedora. O único senão é uma velha brincadeira da turma sobre “quem se fala”. São várias as cenas em que dois personagens comentam sobre pessoas diferentes, e depois um fala sobre uma delas, mas o interlocutor sempre responde sobre uma outra pessoa, causando uma miniconfusão que não leva a lugar algum e que já é quase previsível.
Três adolescentes do ensino médio vivem as suas agruras cotidianas: o nada-a-fazer, os planos pra-depois-que-a-gente-terminar-a-escola, os passeios de bicicleta sempre-para-o-mesmo-lugar, quando se descobrem em um triângulo amoroso. As incertezas de Mim (Bianca Menti), o vértice do triângulo, sobre quem namorar, Daniel ou seu melhor amigo Lucas (Eduardo Cardoso), faz com que os melhores amigos briguem, e uma série de pequenos eventos surja.
Em casa, Daniel tem uma família querida: a mãe (Janaína Kremer), o padrasto (Murilo Grossi) e uma irmã mais nova (a adorável Carolina Guedes). Porém, ele começa a receber notícias – e fotografias – de uma parte esquecida da família: o pai verdadeiro. Relutante, aos poucos Daniel começa a dialogar com ele, um fotógrafo que abandonou a namorada grávida e foi correr o mundo atrás de imagens de guerra.
Honrando a tradição da Casa, a obra é narrada pela irmã, criança de olhos abertos para o mundo, associando os acontecimentos da pequena cidade, especialmente o comportamento do irmão adolescente, com tudo o que lê e vê. É a partir do olhar dela, e do irmão protagonista, que se constrói ANTES QUE O MUNDO ACABE, toda alicerçada dentro de duas urgências visionárias: a do pai engajado e a dos adolescentes imediatistas.
E é quando Daniel começa a olhar as fotografias do mundo, enviadas pelo pai, com cenas de pessoas e suas histórias, que o seu quebra-cabeça pessoal começa a se fazer insuficiente: faltam várias peças. Aliás, as próprias imagens vêm em enquadramentos múltiplos de um mesmo objeto, diferentes pontos de vista que precisam ser montados em seu todo. Somos mesmo quando ainda não sabemos?
Daniel constrói, aos poucos, seu próprio caminho, e Ana Luiza Azevedo, a essa altura, já possui a plateia na mão. Trabalho irretocável do elenco, com destaque também para a participação especial de Irene Brietzke; trabalhos irretocáveis do Giba Assis Brasil na montagem e do Leo Henkin na trilha. ANTES QUE O MUNDO ACABE é a prova concreta da possibilidade de diálogo com o mundo adolescente sem concessões, e de forma inteligente e sensível.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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