Sim, eu sei que quase sem querer nos encontramos, mas não, não é de um quase que é feita esta história, uma história tão rica de detalhes e tão absolutamente legítima, por mais que um isso, por mais que um aquilo, por mais que esse quase por vezes assombre e ameace com suas garras.
Sim, eu sei que cada vez que meus não surgem em teu reino, totalmente construído de sim, totalmente edificado com sólidos alicerces fincados na gentileza, sim, eu sei que esses não podem parecer injustos, eu sei que cada noite não dormida, que cada evento não comparecido, muitas vezes trazem com eles uma triste sensação de solidão, mas não, veja bem, não há solidão quando sentimos o coração preenchido, não há ser em si próprio quando o pensamento habita com carinho e com ternura os teus mais nobres gestos, quando invado as nossas lembranças, quando invado as tuas risadas espontaneamente abertas, este som engraçado que por vezes imito, assim, quando te tornas outra vez criança, numa foto em preto-e-branco, outra vez em cima de uma árvore em um pátio de uma escola qualquer.
Sim, eu sei que somos feitos de palavras, e por palavras certas vezes nos perdemos, e que também sou feito de silêncios, de lacunas, de barreiras que aparentemente me afastam de ti, mas é só aparência. Sim, eu sei que sou feito de manias e de rituais e de atitudes e de momentos tão meus que talvez tu te procures no meio de minha confusão diária, desse amontoado de papéis que nada significam, mas que muito do tempo preenchem, do meu tempo, e do teu também.
Sim, eu sei, tenho consciência da caminhada que se faz, do caminho que se busca, dos medos que se vence, dos gritos que se abafa, das lágrimas que se enxuga, do abraço e do segredo e do olhar que desmaia e também mergulha. Sim, eu sei que não seria mais eu mesmo se não existisse essa possibilidade diária de ouvir a tua voz e apenas por isso mesmo perceber o lugar em que me encontro. Em que nos encontramos.
Sim, eu sei que quase sem querer nos encontramos, mas também sei que esse encontro se fez morada, anagrama autoexplicativo, porque é de amor que se fala.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Nossa! Que lindo!
Paulo,feliz o que fala de/do amor com tal intensidade. Tua palavra se fez arte!
Um bju, Gilka