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categoria: CONTEXTO

AJUDA-ME A OLHAR

ESPECIAL LISBOA

 

Ajuda-me a olhar, disse o garoto ao seu pai, naquele belo microtexto de Eduardo Galeano, quando vê pela primeira vez o mar. Ajuda-me a olhar, porque por vezes não há referência nem perspectiva, e o belo dói. Não uma dor qualquer, uma dor que se transforma, que se espalha. Uma dor que refaz, que reconstrói, que muda nossas visões, inclusive de si mesmo.

 

Não. Não é filosofia barata. Não é tentativa de parecer poético. Apenas é. Emoção.

 

Pensei nisso, viajei por pensamentos abstratos na oportunidade de ver os olhos da minha mãe encherem-se de lágrimas ao deslumbrar os belíssimos monumentos de Paris e de Praga. Também meu irmão, tão engenheiro, tão racional, tão 1 + 1, derreteu-se em abstrações antes para ele incompreensíveis. Por que não se mensuram. Dispersam-se qual fumaça por dentro de nós.

 

Como se mede o que se ganha numa viagem? Como explicar o que se sente quando nos vemos em outros mundos, invadindo cartões postais, cenas mágicas da cinematografia mundial?

 

Flanar por Paris, diz-me o poeta. E eu flano. Por pouco tempo, apenas dois dias. Mas é uma segunda visita, e ainda considero Paris insuperável: a cidade mais bonita do mundo. Meu irmão e minha mãe já lá estavam há três dias. Contam como crianças dos passeios, das caminhadas, das descobertas.

 

E depois Praga. A Praga de Kafka, de Kundera, da primavera e da luta. Andar pelas ruas de Praga é perder-se na história. E encontrar-se. Atravessar a ponte Karlov, um museu a céu aberto com uma conjugação de prédios, palácios, torres e abóbadas de causar arrepios. Como isso pode ser tão belo? Ajuda-me a olhar.

 

Andar pelas ruelas do Castelo Hradcany, com aquela catedral gótica a estourar no céu, caminhar pela rua de Kafka, Zlata ulicka, por suas casinhas minúsculas, coloridas. Praga tem seus cheiros, de vela queimada das belas igrejas, de ervas e do rio. Praga é um cenário a céu aberto. Tão longe de tudo o que eu imaginava. Tão perto.   

 

Volto para as minhas aulas em Lisboa. E no retorno, estudamos a memória e o esquecimento, Paul Ricoeur e Walter Benjamin, e leio um trecho do texto de Márcio Seligmann-Silva, professor de Teoria da Literatura na UNICAMP, sobre a dificuldade do relato, do testemunho: De um lado, a necessidade premente de narrar a experiência vivida; do outro, a percepção tanto da insuficiência da linguagem diante dos fatos (inenarráveis) como também a percepção do caráter inimaginável dos mesmos

 

É isso o que sinto. E por sentir, revejo, cada cena, que não pode ser traduzida, escrita ou desenhada. Está lá. Tal qual o menino que se perde na imensidão do que olha. Do mar. Do céu. Do que sempre lá esteve. Do que sempre lá está. E de tudo o que nos transforma, a cada dia.

 

A FUNÇÃO DA ARTE/ 1  Eduardo Galeano

                Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

                Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

                - Ajuda-me a olhar!

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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