A festejada recente produção cinematográfica mexicana, que nos brindou com a aparição de três grandes diretores (Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón) e um punhado de bons filmes (LABIRINTO DO FAUNO, UM DIA SEM MEXICANOS, E TUA MÃE TAMBÉM, A ESPINHA DO DIABO, AMORES PERROS), tem mais um em destaque pela mídia e pela crítica: LA ZONA (ZONA DO CRIME), obra de Rodrigo Plá, premiada em Veneza, em Toronto, em Cartagena e em outros festivais.
O interessante argumento de um assalto com conseqüências trágicas num condomínio de luxo, entretanto, resulta num filme pretensioso, que coleciona erros do início ao fim.
A seqüência de abertura já mostra, sem qualquer sutileza, a natureza do filme. Uma bela borboleta plana pela limpeza asséptica do lugar. Travelling até a câmera mostrar o outro lado da cerca eletrificada: no cenário sujo e pobre lá de trás (casebres sem cor nem planejamento), a pobre borboletinha encosta nos fios da cerca e é torrada, numa cena que lembra SHREK, sem o humor, é claro. LA ZONA mostra um oásis dos bem-nascidos no meio dos desfavorecidos na Cidade do México. Esse condomínio luxuoso cercado por favelas é invadido por três jovens que assaltam uma residência e matam a sua proprietária. Em seguida, os criminosos trocam tiros com moradores. Dois deles morrem e um se esconde dentro do condomínio. Começa, então, um jogo de gato e rato com sotaque latino.
Nada funciona nesta obra de Plá: a começar pelo elenco. Atores dignos das estereotipadas novelas mexicanas, os tais moradores concentram sua atuação em caras, bocas e olhares constrangedores. Além de tudo, há erro de casting, pois a maioria dos ricaços do tal condomínio não possui traços condizentes com os papéis, a saber, estão muito mais para serviçais do tal condomínio do que para os ricos moradores. Para piorar, a figurinista deve ter tido poucas possibilidades de trabalho, pois as roupas utilizadas nas cenas são qualquer coisa, menos de milionários: jaquetinha de brim com gola de pelego, abrigo desbotado, casaquinho xadrez e por aí vai.
O rocambolesco roteiro é recheado por diálogos inverossímeis e estúpidos. Na verdade, desde o momento em que os moradores reúnem-se numa assembléia e decidem esconder da polícia todo o ocorrido naquela noite, além de caçar e matar o fugitivo, nada mais pode ser levado a sério. São tantos os furos que nem vale a pena mesmo raciocinar, mas enfim: é crível uma comunidade riquíssima que não trabalha? Todos ganharam seu dinheiro através de herança? Os personagens são pessimamente desenvolvidos, nada sabemos deles. São tipos, e não pessoas. Na tal reunião, todas as canastrices possíveis são trabalhadas em caricaturas dignas de uma novela do SBT. Há a mulher sanguinária que incita os homens a agirem à moda olho por olho, dente por dente. Só falta um tapa-olho. Há o homem inseguro que é acusado de covardia pelo grupo. Há o brutamontes que resolve tudo na base da porrada. Há a mulher inteligente (Maribel Verdu, também produtora deste equívoco) e chique que não concorda com nada daquilo. Há o senhor arrependido etc.
Enfim, basicamente as cenas repetem-se entre a polícia entrando no condomínio para investigar e os moradores disfarçando seus crimes, até um final risível e didático do tipo: veja bem a corrupção no terceiro mundo. Estamos perdidos, não?
LA ZONA é um exercício preconceituoso, com péssimo roteiro e atuações canhestras. Duvide da cotação maravilhosa que alguns jornais deram ao filme (e esqueça o papo de metáfora ao mundo urbano, fábula da violência ou drama contundente). LA ZONA é um A VILA e MULHERES PERFEITAS ainda piorado, pois é capcioso e absolutamente artificial.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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