Minha mãe dedica-se com um amor raro à escola onde trabalha há muitos anos. Escola pública da rede estadual. Na sua vida, e na nossa – filhos e marido –, foram vários os momentos em que sua tranqüilidade foi trocada pela tensão de momentos extremistas: a deflagração da greve.
Eu e meu irmão acompanhávamos de perto, pois ambos somos frutos da escola pública, igualmente. E sempre fui favorável aos movimentos da categoria, mesmo que a paralisação das aulas implicasse um prejuízo enorme aos alunos, especialmente. O que sempre me deixava estupefato eram as alegações da sociedade, criticando a greve menos pela óbvia dificuldade na recuperação das aulas com qualidade, e mais pela quebra dos planos nas férias de verão. Oh, aí sim era o problema: e a casa alugada em Tramandaí, professores, como fica?
Talvez meu posicionamento não fosse isento por ter em casa a prova do desconforto do baixo salário e do tratamento recebido aquém do merecido. Um professor. E mal eu sabia que um dia também seria um (e, por sorte, da rede privada).
Lembro-me de crises graves nos governos de Jair Soares, de Pedro Simon e de Alceu Collares. Foram mandatos que capricharam no desdém à educação. Obviamente, sempre há uma insatisfação com relação aos salários – sempre poderiam ser maiores – ou com o plano de carreira. Cada governo representa uma certa decepção ao magistério, especialmente porque é impossível resolver questões tão enraizadas. O professor da rede pública estadual NUNCA vai receber um salário que faça jus ao que de fato merece, e isso é triste. Mais que triste, isso aumenta a sua baixa auto-estima, provocando uma espécie de pacto da mediocridade entre muitos de nossos mestres, que apostam numa filosofia de curto alcance: já que ganho mal, finjo que dou aula. E com isso, a educação obviamente sai perdendo.
Mais uma vez a greve é deflagrada. E devo confessar: fazia tempo que não via um governo tão absurdamente despreparado para este tipo de conflito, a começar pela nossa governadora (digo nossa pela obviedade do fato, mas não votei nem nunca votaria nessa pessoa, e estava a léguas de distância, fazendo doutorado fora do país, quando das eleições de 2006. Por isso, até hoje não entendo como ela conseguiu vencer), mas especialmente por uma Secretária da Educação que tem, como maior característica, uma falta de carisma absurda e a incrível capacidade de proferir discursos infelizes e comentários desnecessários, dia após dia.
Minha mãe está prestes a se aposentar. Há alguns anos, saiu da sala de aula e resolveu reabrir a biblioteca na sua escola. Biblioteca hoje, pois na época nada mais era do que um depósito de livros mofados e desorganizados. Reorganizou o acervo, promoveu atividades diretas com os alunos, como a Hora do conto. Porém, ano passado, lembro-me de ter voltado no tempo, quando era criança e observava seu sofrimento em nome da classe. Estava nervosa porque a secretaria de educação, alegando falta de professores, pediu que ela voltasse à sala de aula. E a Biblioteca?, perguntaram. A biblioteca é dispensável, responderam.
Sim, foi essa a resposta, e nem vou perder tempo em argumentos tentando mostrar o absurdo da colocação, pois qualquer pessoa alfabetizada sabe o que significa um governo desdenhar dos livros e da cultura. Enfim, em várias escolas, as bibliotecas foram fechadas, tudo em nome da “falta de professores”. É por isso que me causou uma particular ira a resposta da referida Secretária à greve do magistério, em nome da governadora: “Substituir professores grevistas por outros. Corte do ponto e corte da efetividade dos professores”. Ah, agora existem professores à disposição?
O tom da ameaça e da chantagem econômica, mais um vilão nas relações de poder em que alguns despreparados insistem em torturar os do lado de lá, vai ao encontro de um governo antidemocrático, que não sabe lidar com a oposição de opiniões e, principalmente, com as manifestações, basta lembrar as inúmeras cacetadas (literalmente) que alguns manifestantes já receberam, até o comandante geral da PM ter a estapafúrdia idéia de se criar um local de protesto beeem longe do Palácio, lá na beira do rio.
Para completar, nos mesmos dias em que a nossa governadora lidera um movimento contrário ao piso nacional de 950 reais aos professores, e apresenta uma opção ridícula como contraproposta, entra na Assembléia um projeto de lei que institui uma bonificação de quase sete mil reais aos secretários.
Com a façanha de cometer pequenos e grandes erros na maioria das suas decisões políticas, com uma incapacidade notória de montar uma equipe de secretariado competente, não é à toa que a governadora do Rio Grande do Sul tem, registrado em pesquisa, um dos governos mais impopulares do Brasil. Mas é claro, no final das contas, a culpa no caso da Educação será dos professores, que não querem nada com nada, como, por diversas vezes e de forma patética, já pronunciou nossa Secretária da Humilhação.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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