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categoria: CONTEXTO

A TURMA DA COPA DO MUNDO

Em abril, estava nos preparativos. No antigo terraço de seu sobrado, antigamente um espaço ocioso que apenas acumulava limo, surgiu uma bonita cobertura. Uma peça grande, aconchegante, ao estilo de um loft. Vidro temperado, ar-condicionado. Cozinha. Banheiro. A esposa subiu, pela primeira vez, proibida que estava de ver a obra antes de ser finalizada. Marieta arregalou os olhos de satisfação ao descobrir aquele lugar novo. Imaginou-se sentada ao sofá, lendo os seus livros espíritas, admirando a… vista. A vista. Da beleza do parque, à esquerda, pôde observar a copa das árvores. Mas à direita, a composição da pobreza: no beco que ficava a uns duzentos metros dali, esquálidas estruturas desbravavam o espaço reduzido em puxadinhos triplex, desafiando a engenharia e, por vezes, as leis da física.

 

“Ai, Carlos Alberto…”, disse uma Marieta desanimada.

O marido tentou em vão dissuadir a tristeza da esposa. Que prestasse atenção na moderna lareira, com acendimento automático. Que prestasse atenção no belo sofá de couro de oito lugares, no belo piso tabuão, 100% de Gramado. Que prestasse atenção no fino acabamento em gesso do teto, mas tudo o que Marieta via era aquele churrasco na “cobertura” da maloca, adiante: como é que eles não despencam dali?, pensou.

 

Para compensar o desânimo da mulher, e terminando os preparativos para a Copa, Carlos Alberto comprou uma Full HD 60 polegadas.

 

Quando a competição começou, estava tudo preparado. Contratou um chef, para inaugurar a moderna cozinha na cobertura, chamou uma dúzia de amigos. Fardado de Brasil dos pés à cabeça, Carlos Alberto espiava, com certo ar de vingança, os vizinhos do puxadinho, adiante, que mandavam ver em um pagode enfumaçado.

 

Na hora do jogo, o espetáculo do som dolby transformou o loft em uma sala de cinema. Marieta finalmente havia se esquecido dos festeiros vizinhos. O nervosismo do jogo tomou conta do ambiente. Mas cada cena em câmera lenta, na poderosa definição da tela da TV, tornava o espetáculo ainda melhor, e Carlos Alberto mais orgulhoso de sua aparelhagem. Final do primeiro tempo e nenhum gol.

 

No segundo tempo, no primeiro ataque, os jogadores brasileiros tramavam a jogada quando a galera do puxadinho começou a berrar, buzinar e dançar. Os refinados torcedores se deram conta na hora que saiu o gol do Brasil. A comemoração foi chocha. Puta que pariu, o delay. Sim, meus senhores, o famoso delay das desenvolvidas e tecnológicas coberturas digitais. A turma do puxadinho estava vendo o jogo na base do bombril agarrado na antena. E recebia todo o show de imagens antes dos bem-nascidos. Precisamente, 9 segundos antes. Até os fogos de artifício saíam antes da comemoração de Carlos Alberto e companhia.  

 

Aquilo irritou Carlos Alberto, Marieta e os convidados. Em cada ataque perigoso, o anfitrião aumentava o volume, mas se ouviam sempre gritos e uuuuuuuhs do lado vizinho. E foi assim, sempre assim, nos quatro gols. Carlos Alberto colocava os dedos fundo no ouvido, mas sempre ouvia o berro de gooooool antes da imagem mostrar a finalização da jogada. Descontrolado, Carlos Alberto foi até a parte externa e começou a gesticular, berrando barbaridades. Foi naquele momento que Dorinha e seus amigos perceberam que havia uma festa no casarão ali perto, mas nada ouviram.

 

Empunhando um espeto de churrasco na mão tal qual uma espada, achando que era empolgação da vitória pela turma do bairro, a galera do puxadinho acenou e berrou:

“Brasil, Brasil”

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “A TURMA DA COPA DO MUNDO”

  1. MUITO BOM!! Estou rindo enquanto escrevo!

    A mistura de humor e crítica as diferenças observadas na nossa sociedade tornaram a história ainda mais divertida.

    PARABÉNS!!!

    Beijos
    Marga

    Posted by MARGARETE HÜLSENDEGER | June 30, 2010, 16:44

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