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categoria: CONTEXTO

A PARTE PELO TODO

Quantas vezes não conversamos com pessoas que, saudosistas, dizem de seus tempos escolares com o orgulho de quem quebrava pedras para extrair o melhor da educação. Aulas pela manhã e pela tarde; aulas de grego, latim e francês; professores exigentes que não se contentavam com pouco.

Evidentemente que os tempos mudaram. A relação professor x aluno acompanha, ou ao menos deveria acompanhar, a própria velocidade de transformação pela qual passa a nossa sociedade: nossos alunos, crianças e adolescentes, são a cada dia mais inquietos (em todos os sentidos) e precisam de uma identificação com o professor para se interessarem pela disciplina por ele ministrada.

Enfim, daí resulta outro rol interminável de lamentações. Professores com mais de vinte anos de profissão ainda não fizeram o luto por seus alunos dos tempos passados. Eles eram interessados, educados… nada comparável com os de hoje, é discurso corrente nas salas de professores das escolas.

Como eu tenho pouco tempo ainda em sala de aula, apenas escuto com atenção, fazendo o papel de um bom ouvinte, mas sempre acho que pintam a situação de forma muito mais catastrófica do que de fato é. Fazer o quê? Eu confesso a todos que, por princípio, gosto muito dos meus alunos e vejo, em cada um deles, as contradições típicas do nosso tempo. Não compactuo com discursos derrotistas ou com aquela certa vitimização irritante que por vezes faz parte da classe, como se “ser professor” também não fosse uma escolha. E sendo, por favor, os não-satisfeitos que: ou mudem de profissão, ou de abordagem.

De qualquer modo, há questões envolvidas na educação hoje em dia que podem irritar mesmo e que vão além desse comparativo injusto. De minha parte, ando incomodado com a forma como o resultado do ENEM está sendo utilizado pela imprensa.

O ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, nasceu como uma espécie de parâmetro geral escolar. Ou seja, uma prova, com caráter individual, voluntária (ressalto), para que se soubesse como o nosso aluno está em relação a sua turma, a sua escola, a sua cidade, etc.

Evidentemente, com o passar do tempo, certas limitações acabaram por deturpar a filosofia básica do ENEM. A primeira delas é o conflito enorme, gigantesco, que há nas escolas particulares: poucos alunos realizam a prova. Ainda que algumas faculdades (particulares) reservem vagas (muitas com desconto nas mensalidades) para os alunos, não há grande interesse por parte deles. É uma questão social: se o aluno tem condições de freqüentar uma boa escola particular, e igualmente tem condições de freqüentar uma universidade paga, qual o incentivo para realizar uma bateria-extra de provas?

Infelizmente, algumas escolas (e eu respiro com tranqüilidade para falar que as que eu trabalho não compactuam com isso) perceberam que a mídia adora relacionar “os mais” em tudo, inclusive em educação (pense nas empresas mais lucrativas, nas marcas mais lembradas, nas pesquisas eleitorais, nas avaliações dos nossos políticos), e partiram para uma espécie de deturpação total do projeto ENEM. Selecionam seus alunos mais “viáveis”, digamos assim, aqueles que são destaque na escola, oferecem algumas vantagens e… pronto. Tendo em vista que é preciso que apenas 10 alunos façam a prova para a escola entrar no ranking, imagine o que pode acontecer: dez bons alunos carregando (e elevando) uma média que será divulgada como sendo a da escola inteira.

Resultado? Dias e dias o nome da escola estampado nas matérias de educação, quando a reportagem discute o sucesso da escola X em detrimento da Y. Falacioso.

É triste quando percebemos que mesmo dados aparentemente inocentes como desempenho escolar podem ser manipulados de forma tão mercadológica. Algumas escolas, com certeza, farão faixas, anúncios nos meios de comunicação, a gabarem-se do excelente desempenho no ENEM com uma dúzia de alunos tendo sido testados. E talvez garantam mais algumas matrículas no ano seguinte.

E a educação, o que tem a ver com isso?

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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