ESPECIAL LISBOA
A noite de Lisboa tem muitos sotaques. E tal qual uma Torre de Babel, tem muitas línguas também. Noites estreladas de verão, muitos lisboetas na praia, e as ruas ficam apinhadas de turistas. Os espanhóis são os menos discretos em expressar a alegria de por aqui estarem. Cantam, falam alto, riem. Muito próximo deles estão os italianos. São tão expressivos que parecem estar sempre discutindo, gestos largos com as mãos, sorrisos e gargalhadas espontâneas. Os ingleses são os mais discretos. Utilizam-se de sua fleuma britânica e passam quase despercebidos.
E todos juntos, nos metrôs, nos ônibus, seguem para a noite de Lisboa. Olhadas disfarçadas – ou não – nos mapas escondidos nos bolsos. Há shows independentes por toda a cidade. Imigrantes que aqui estão entoam suas canções típicas em qualquer lugar para conseguir algumas moedas.
Sexta à noite, em alguns minutos, próximo ao Largo do Chiado, surge o superman. Um gordinho, vestido com a fantasia completa, incluindo uma capa, acompanhado por um grupo de… espanhóis, oferecia proteção extra à cidade de Lisboa. Divertido era acompanhar a reação de quem quer que o visse. Era uma espécie de festa de despedida de solteiro para o gajo espanhol. Fazia parte do ritual escolher uma mulher que por ali estivesse, sentada em algum banco da cidade, ou nos bares, agarrá-la nos braços, e dar uma volta com a pobre escolhida ao colo. Os amigos entoavam a trilha característica, batiam palma, tiravam foto.
Logo depois disso, um casal do leste europeu fez seu show frente ao Café A Brasileira, um dos mais tradicionais do Chiado. Cantavam e dançavam, e depois passavam chapeuzinho. Mais adiante, um brasileiro cantava bossa nova, sentado frente a uma igreja.
As ruas, mesmo na madrugada, ficam repletas de gente. Sentados em bancos, no chão, nos monumentos… todos à procura de um pouco de diversão. A concentração aumenta no Bairro Alto, considerado o bairro boêmio de Lisboa. Ali, todas as tribos convivem pacificamente, basta caminhar pelas estreitas ruelas para perceber. Em certos momentos, difícil é fazer isso, pois a multidão compacta ocupa os bares e a frente dos bares, produzindo uma massa uniforme, com cerveja e outras bebidas à mão. Vencendo esse obstáculo, logo vemos os punks (e suas variações), vestidos de preto, frente a casas com a música característica. Logo em seguida, a batida dance, hinos dos anos 70, Madonna e Cher avisam que o ambiente naquela parte é GLS. Bares colocam cartazes avisando que são gay friendly, mas isso nem era preciso.
Quase ao lado, na mais pacífica convivência, outros bares descolados, heteros, casais dançando na rua, aos beijos, demonstram estarem à vontade na noite de Lisboa. Lugares ainda mais descolados como o famoso Bedroom, que tem na decoração o grande atrativo: camas no lugar de mesas. À porta, uma triagem. Nem todos conseguem entrar para conhecer o divertido lugar, que tem um dj nos finais de semana, mas que sempre aposta num som mais lounge, uma espécie de aperitivo para as outras casas noturnas. No ano que vem, os donos da Bedroom querem mudar toda a decoração. Em vez de camas, a idéia é fazer uma grande cozinha, ou um banheiro imenso, ainda não sabem.
Há também, no Bairro Alto, muitas casas de fado. Caríssimas, pegam o turista pelo bolso. Mais em conta são as tascas que oferecem o famoso fado vadio. Ou seja, vários amadores, alguns quase profissionais pela força do hábito, visitam o repertório fadista. Trata-se de uma experiência. Entra-se, conversa-se um pouco. A certa altura, o responsável grita: Por favor, agora eu peço o vosso silêncio. Nosso show continua…E então, alguém começa a cantar um fado. E ai do mortal que cochichar durante as apresentações. O silêncio deve imperar, ou recebe-se um xingão… é muito engraçado.
Mas sim, é claro que a noite não se resume ao Bairro Alto. Mauricinhos, Patricinhas, Peruas e afins vão às danceteria da zona do cais. Há a mais famosa danceteria de Lisboa, não muito longe dali, nas margens do Tejo, no bairro Santa Apolônia. Trata-se da Lux, casa noturna que tem, como um dos sócios, o ator John Malkovich. Lá, há regras estritas. Nem todos entram. Aliás, isso é constante em Lisboa. Alguém na porta tem o poder de dizer quanto custa a diversão. Em geral, 10, 12 euros, com direito à bebida no valor respectivo. Mas se há muita gente lá dentro, se há muitos homens, ou muitas mulheres, começam as pessoas a ser barradas. Para isso, pedem uma consumação mínima de 130 euros, podendo chegar a 250. Claro que a criatura vai dar meia volta. A Lux possui muitas pistas de dança, mas o terraço enorme é o lugar mais procurado.
Mais adiante, em Santos, ainda nas margens do Tejo, as danceterias e os bares ficam um ao lado do outro. São dezenas de alternativas. Os mais famosos são o Loft, Queen’s, W, Kapital, Kremlin, Dock’s , Buddha, Fama, Garage. Há também famosas casas de jazz (o Speakeasy, o Bicaense Café e a OndaJazz são os mais famosos) e famosos pubs e bares, sempre abertos, de todos os estilos. Pelo estilo da música, já se vê como é o ambiente. Por exemplo, há vários que tocam axé music. E vê-se, do lado de fora, a brasileirada de braços estendidos a dançar, perto das janelas, feliz da vida.
Aliás, preciso aqui abrir um parêntese. Há cerca de dois meses atrás, contaram-me que foi organizada uma grande festa brasileira. Era num lugar enorme, e havia cartazes espalhados pela cidade como o grande encontro brasileiro. Cerca de 3000 pessoas divertiam-se quando… tchan tchan tchan… bate a imigração. Mais de 2000 ali estavam ilegais em Portugal. Triste fim de festa. Fecha parêntese.
E assim segue a noite de Lisboa, sempre com o lindo castelo de São Jorge no alto, iluminado, até o amanhecer, quando a cidade ganha uma cor própria e mais um dia quente de verão é anunciado.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Entrei em seu belo blog e estou adorando ler as óptimas informações nele postas.
Neste artigo fiquei a saber que em Lisboa na zona de Santos existe uma Danceteria chamada Buddha, e ao tomar conhecimento fiquei imensamente chocado, pois é uma falta de respeito para com uma divindiade, cuja religião é seguida por milhões de fiéis.
Como tal também não seria de bom tom, mas sim de derespeito dar o nome de Jesus a uma casa de alterne ou de dançaria.