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categoria: CONTEXTO

A MÁRTIR DO PATRULHAMENTO

Não fume. Não corra. Não beba. Não ofenda. Não.

O patrulhamento existe em todos os lugares, para o bem e para o mal. Há sempre alguém que toma a tarefa de zelador dos bons costumes e lembra, aos demais, o que eles devem – e não devem – fazer. Isso é clássico.

 

Há patrulhamentos absolutamente necessários, porque educativos. Porém, há aquele cabotino, geralmente direcionado à classe artística, que aparece nos meios de comunicação e se posiciona ideologicamente.

Então, a religião que a fulana disse seguir vira alvo de discussões, e a fulana deve, para o resto da vida, arcar com as conseqüências de sua opção.

 

Porém, quando a coisa descamba para a política, então o debate se torna, realmente, acirrado. Um exemplo notório é o de Marília Pêra, que assumiu em público a sua opção pró-Collor antes das eleições. Deu no que deu, e Marília ficou anos dizendo que não tinha nada a dizer.

Mais recentemente, foi Regina Duarte e seu “eu tenho medo”, sensacionalista, que revoltou parte da intelectualidade nacional. Por mais que saibamos que cada um tem o direito de se manifestar, cada vez que um artista pende mais à direita acaba provocando surpresas. Regina também teve de dizer que nada poderia dizer sobre tal afirmação.

 

Do outro lado da margem, um dos mais importantes escritores gaúchos sempre assumiu sua preferência pela esquerda. Quem acompanha as crônicas de Luis Fernando Verissimo sabe o quanto o autor decepcionou-se com as transformações ocorridas no governo federal petista. Mesmo assim, a velha patrulha não se satisfazia. Deve ter enchido (o saco e) a caixa de correio eletrônico de Verissimo pedindo que ele escrevesse o que eles queriam escrever, mas não tinham talento para tanto.

 

Há pouco mais de uma semana, Verissimo escreveu, nos principais jornais do país, que não agüentava mais receber mensagens cobrando seu posicionamento político. Usando da ironia, ferramenta na qual é mestre, Luis Fernando escreveu que achava já ter deixado claro, em outros textos, o seu desapontamento com o governo Lula. Tinha a sensação que aquilo, pelo visto, não era o bastante, porém não diria que um presidente popular e de esquerda nunca deveria ter tomado posse, etc, etc, discorrendo sobre o que, outros, na certa, gostariam que ele escrevesse, mas que ela NÃO escreveria.

 

Pois bem, tal desabafo de LFV não deve ter sido suficiente também. Então, numa jogada de mestre, sutil e ao mesmo tempo enfática, Verissimo, no dia 25 de agosto de 2005, matou a Velhinha de Taubaté, personagem ficcional que, há décadas, acreditava em todos os seus presidentes.

 

A morte da velhinha, em crônica, é um delicioso exemplo da inteligência do escritor gaúcho, dando aos chatos de plantão a prova mais forte de sua desilusão com o governo de Lula.

Verissimo precisou matar uma de suas personagens mais queridas para mandar um recado que, qualquer bom leitor, há muito já sabia. E, por isso mesmo, porque a burrice que assola a classe média é enorme, talvez a morte da querida velhinha tenha sido em vão. Talvez os donos da patrulha  ainda não tenham entendido. Afinal, o que é uma mártir transitando num caminho de metáforas para gente que mal sabe juntar as letrinhas, mesmo possuindo diplomas e pose?     

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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