// você está lendo...

categoria: CONTEXTO

A JANGADA

ESPECIAL LISBOA

Os países da Europa, onde felizmente se tem verificado um certo abaixamento de tom na linguagem quando se referem a Portugal e Espanha, depois de séria crise de identidade com qual se debateram quando milhões de europeus resolveram declarar-se ibéricos (A jangada de pedra)

 

Em A jangada de pedra, o escritor português José Saramago brinca com a idéia de que a Península Ibérica, um belo dia, começa a soltar-se da Europa e a flutuar, tal qual uma ilha. A metáfora, óbvia, refletia, mais na época (o livro é da metade dos anos 80) do que agora, uma certa resposta ao sentimento de não-pertença à Europa, muito em função da própria maneira como Portugal e Espanha eram vistos pelo centro europeu.

 

Em Portugal, a visão sobre a Espanha mudou. O país vizinho está em alta, de acordo com os portugueses. Os espanhóis invadem as terras lusas no verão em busca de novas paragens e isso pode ser um indício. A economia espanhola é tida como em notável crescimento. Também Portugal respira mais aliviado. A mudança da moeda afetou muito, especialmente a terceira idade que vive de pensão. Porém, nas grandes cidades, como Lisboa e Porto, é notório a injeção de dinheiro da comunidade européia para restauração de construções arquitetônicas e melhoria urbana.

 

Contudo, a Espanha também está em obras. Madrid e Barcelona estão com mais tapumes do que nunca. Especialmente Madrid. Há uma intensa e extensa reformulação da infra-estrutura, com construção de vias subterrâneas e restauração de prédios históricos. Em visita recente às duas cidades mais famosas da Espanha, Madrid e Barcelona, reparei numa capa de revista que dizia qualquer coisa do tipo: ESPANHA: estamos tão bem assim?. Não, não estamos, respondem-me alguns amigos espanhóis. Porém, lembro-me de uma pichação numa paragem de ônibus em Lisboa (PORTUGAL, até quando investimento apenas na indústria do entretenimento?) para dizer que, ainda mais em Espanha, a vocação turística é notável.

 

Madrid é uma cidade fenomenal. Não prima pela extrema simpatia por seus turistas, mas eles saem da cidade encantados. Eu, por exemplo, fui pela segunda vez a Madrid e percebi, agora, dez anos depois da primeira visita, uma cidade muito melhor conservada. Contudo, algumas informações desencontradas nos quiosques de turismo me deixaram um tanto irritado. Procurava descobrir de onde saíam dos ônibus para Barcelona, apenas isso, e me fizeram percorrer três estações, em posições opostas na cidade, para finalmente achar a dita cuja quase ao lado de onde eu estava na primeira pergunta.

 

O amor pela língua espanhola também beira o exagero. Incompreensível como, num país tão cultural como a Espanha, o cinema seja, quase em 90% dos casos, dublado. Ainda bem que há o grupo Renoir e outros que, aos cinéfilos, garantem os filmes em versão original. A paixão pelo espanhol é tão forte que fica entranhado nas línguas estrangeiras: o inglês de muitos espanhóis é quase incompreensível porque tem o ritmo do espanhol e o sotaque encravado em cada palavra.

 

Contudo, mesmo levando umas bordoadas de alguns espanhóis, cada vez mais adoro Madrid e tenho vontade de voltar. A vida cultural é incrível, com suas grandes vias e belíssimos museus, e esses madrileños, seres notívagos que atravessam a madrugada, são de uma alegria e de uma espontaneidade únicas.

 

E Barcelona… ah, Barcelona. Que cidade encantadora. E o povo, muito mais cordial, do tipo que pára na rua ao ver um turista perdido nas folhas dos mapas do El Corte Inglês que teimam em voar pela brisa do mediterrâneo. A cidade transpira uma energia incrível, com uma natureza belíssima aliada às construções de tirar o fôlego. A língua catalã é outro atrativo, e é divertidíssimo perceber construções que lembram a língua portuguesa, mas que em seguida transformam-se num francês-ítalo-espanholado de impossível entendimento.

 

Barcelona é arrojada. Desde Gaudí, com suas construções que parecem sair de sonhosou pesadelos. Barcelona é cosmopolita, repleta de línguas e turistas por todos as esquinas. Barcelona é uma cidade admirável.

 

Volto à tranqüilidade de Lisboa, com seus portugueses pacatos e discretos. Confesso que também senti falta desse comedimento, desse ar um tanto crítico sobre todas as coisas. Para mim, a Península Ibérica vive… e se a profecia de Saramago se concretizasse, eu iria bem feliz a navegar nessa jangada.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “A JANGADA”

Deixe um comentário