O drama do esquisito que se apaixona pela bela é terreno muito explorado pela cultura de massa. É só pensar nas comédias norte-americanas e suas variações: o nerd que conquista a cheer-leader, a feinha de óculos que se transforma e conquista o craque de futebol do colégio, enfim, filmes da linha AMERICAN PIE. A indústria do desenho animado segue à risca a cartilha, desde os óbvios CORCUNDA DE NOTRE DAME e A BELA E A FERA, passando pelos recentes SHREK e A NOIVA CADÁVER.
Interessante pensar que as animações seguem, por sua vez, o mito tão explorado pela literatura. Portanto, os opostos atraídos não é temática exclusiva da modernidade, basta lembrar do corcunda que se apaixona pela bela cigana, a besta que se apaixona pela donzela pura, o narigudo que escreve lindas palavras de amor, o gorila gigante que conquista o coração da loira.
Num mundo cada vez mais comandado pela fogueira das vaidades, chama a atenção a insistência na temática do amor entre os diferentes, como que um sopro de humanismo no meio de tanta futilidade. Na ânsia de seguir o politicamente correto, mesmo que tão implícito, Hollywood recicla velhas idéias, como o famoso KING KONG.
Peter Jackson provocou, no mínimo, reflexões quando anunciou que refilmaria o clássico. Muita gente – eu me incluo – perguntava: mas por quê? A resposta está no próprio filme, uma obra-prima da ficção com ritmo vertiginoso. Cinema-pipoca de primeira.
Porém, o que mais chama a atenção é: como podemos nos afeiçoar tanto por um monstrengo? Por que ficamos tão tristes com a inevitável derrocada do macacão?
Uma amiga minha disse que, tendo em vista a baixa no mercado afetivo – há poucos homens dispostos a compromisso, diz ela – adoraria morar com o King Kong numa ilha perdida.
Talvez a resposta seja mais óbvia ainda: o King Kong não representa o monstro incompreendido, não; ele é a personificação da segurança. Com ele, nenhuma mulher precisa se preocupar com a violência. Ele é a imagem do ombro – gigantesco – que muita gente anda procurando: algo para se agarrar na hora do medo ou do pôr-do-sol, mão batendo no peito a declarar a beleza do espetáculo.
Em geral, os esquisitos, as feras, os grotescos, os estranhos conquistam por um lado que, apenas aos poucos, é percebido pelo outro. E esse lado descoberto é tão raro que acaba somando mais pontos na tabela competitiva dos sentimentos. Por sofrer discriminação, o esquisito desenvolveu suas próprias armas para vencer, e essas agradam em cheio a presa escolhida.
Eis a contradição: num momento em que todos querem ser e agir de forma homogênea, na famosa produção em série tão alardeada pelos pensantes do mass media, a hora e a vez é do ogro, da noiva em decomposição, do gorila assustador. O mundo é das feras.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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