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categoria: CONTEXTO

A ESCOLA DA HUMILHAÇÃO

Em tempos de guerra, quando surgem debates calorosos pró e contra um embate, não tem como eu não me lembrar da minha péssima experiência no quartel.

Naquele tempo, falava-se na Guerra do Golfo. Eu tinha crescido escutando da estirpe masculina da minha família que eu deveria servir, que eu aprenderia a ser homem e a ter responsabilidades. Estranhamente, nenhum deles havia servido mas, mesmo assim, recomendavam aquilo que desconheciam.

 

Cresci apavorado com a ideia de ser obrigado a fazer uma coisa que não queria. Entrei na faculdade e tive um colega que, um ano mais velho, foi arrancado da nossa aula pelo exército. O cara era como eu, um apavorado com a ideia de servir. Fez de tudo para não entrar, mas acabou entrando. Teve de trocar de turno na faculdade e, cada vez que nos víamos, eu me apavorava ainda mais. A revolta dele era enorme – virou um rebelde convicto – sendo, é claro, bem castigado por isso.

 

Um ano depois, fui me alistar. Tinha conversado com doispeixespara me tirarem do quartel. Estava no terceiro semestre da faculdade e seria uma perda de tempo servir. Fiz a seleção para o CPOR. Disse, a todo momento, que não era voluntário. Me lembro como se fosse hoje o dia do “listão do CPOR”. Um milico metido disse, antes de lê-la: “Quem está nesta lista, não sai. Quem não está, não entra!” Parecia, para mim, interminável, e não pude acreditar quando ouvi, com todas as letras, o meu nome. Foi uma cena absurda. Barbados choravam de puro desespero em ambos os lados: gente que queria entrar e seguir carreira e gente, como eu, que queria tudo, menos o exército.

 

Ficamos sabendo que havia uma determinação superior de “elitizar” o exército e, desta forma, apenas quem tivesse faculdade seria aceito. Voluntário ou não. Através de meuspeixes”, fiquei sabendo que meus dados haviam sido manipulados e que, na minha ficha, constava que eu era voluntário. Que tinha me saído muito bem nas provas e que eu era, nas palavras deles, “inegociável”.

A primeira vontade era de cuspir na cara de todos aqueles seres de verde. Me revoltava ainda mais ouvir o choro de quem não entrou, gente que sonhou com a carreira, que se esforçaria para dar o melhor de si. Ao invés disso, nossos sábios verde-olivas decidiam pegar uma gurizada contra a vontade para, na marra, serem seduzidos pelas “delícias” da vida no quartel.

 

Foi quando eu me dei conta que sonhava… claro. Tantos anos torcendo para não passar por isso tinham sido formulados com detalhes no meu inconsciente. Acordei assustado, no escuro. Apalpando o chão, para não encontrar os coturnos engraxados. Mas para a minha desgraça, eles estavam ali, ao lado da cama, esperando meu primeiro dia no quartel. Um despertador para as cinco da madrugada e as lembranças mostravam ser reais: meu cabelo porcamente rapado pelos barbeiros. O exame dentário mais rápido da minha vida, do tipo cronometrável com a sentença: “abre-a-boca-ok-pode-ir”.

 

Também vi o documento que dizia que eu tinha trocado de turma na faculdade. Adeus a meus amigos para encontrar uma nova turma, de gente revoltada ou abduzida a um ser calado e capacho. Tantas evidências me faziam crer que, realmente, estava indo para o meu inferno. O inferno que eu tanto quis fugir, agora, a meu alcance.

 

CAMBADA DE VEADOS! TÃO PENSANDO QUE ISSO AQUI É COLÔNIA DE FÉRIAS, SEUS PUTOS? VÃO ARRUMAR ESSA MERDA E SE FIZEREM SUJEIRA VÃO LIMPAR COM A LÍNGUA!”

 

Mais ou menos esta foi a nossa gloriosa recepção, vinda de um milico bigodudo, quando todos nós guardávamos nossas coisas nos armários. Fomos pro pátio. Minha primeira mijada: “Presta atenção nos teus cadarços, bocaberta, eles estão errados”. Olhei para eles e não vi nada de errado. “A primeira volta é por baixo, e não por cima…” Um cara que chegou atrasado foi humilhado na frente de todos. Um que não se barbeou foi obrigado a fazer a barba com um aparelhinho bagaceiro, na frente de todos, no seco. Sangue por todo o rosto.

 

Fui designado para a Intendência, e descobri que o milico responsável pela área era, disparado, o mais legal. Anunciou nosso primeiro campo para a semana seguinte. Me lembrei do meu colega da faculdade que falava dos “campos”: “Tem que acordar na chuva, tomar sangue de galinha morta, rastejar no chão.”

 

Fui para uma aula ridícula sobre frieiras. O “professor” falou da AIDS, que a melhor maneira de evitá-la era não fazendo sexo. Ah, é? Um convite masturbatório a essa cambada de jovens com o tesão saindo pelas orelhas?

Depois, educação física. Fui vestir os “tênisque me deram. Meu Deus, o que era aquilo? Bamba era Nike perto daquilo. Um solado de plástico, um tênis absolutamente inapropriado, que seria barrado em qualquer teste de alto impacto.

Num outro dia, tivemos reunião com um comandante carioca. Era uma espécie de aula inaugural. O velho dizia que deveríamos nos orgulhar de estarmos ali, num lugar almejado por tantos. Filho da puta. Disse que o CPOR era um belo caminho para quem quer seguir carreira militar. Filho da puta. Eu engolia em seco.

Então ele disse uma coisa que me deixou atento: “Esta é a turma definitiva. Ninguém entra, ninguém sai. A não ser por uma mínima troca: existem alguns alunos, voluntários, que estão esperando a lista do vestibular da UFRGS desse ano. Se alguns deles passarem, eles entram.” Se eles entram, alguns saem, pensei eu. fiquei absolutamente excitado com a possibilidade de sair. Mas meus peixes me tiraram qualquer esperança: “vai ser um ajuste interno!”

 

Meus colegas de intendência eram muito legais, na sua maioria. Gente que se via forçada a ficar um ano num lugar absurdo, repleto de milico berrando e brigando e exercendo uma pseudo-macheza que nem teu pai seria capaz de fazer. Uma escola da humilhação. Confesso que tinha na garganta ao pensar em ir pra durante o ano inteiro. Mas não chorava. Um colega meu, hoje um dos maiores velejadores gaúchos, era um dos mais revoltados.

 

Eu estava assistindo a uma aula estúpida sobre topografia quando ouvi meu nome. Acordado dos devaneios, ouvindo a risada de alguns colegas que diziam: “se fudeu, se fudeu”, fui ver o que era. “Vai limpar o vestiário com a língua”, foi o que eu pensei, me lembrando do imbecil mais carrasco daquele quartel, ajeitando seu asqueroso bigode. Quando chego na porta, escuto: “Paulo, arruma teu material, devolve as roupas e te veste de paisano”. Olhei atônito para o militar. “Que que houve?” “Faz issotu vai pra casa”.

 

Foi como se. Como se de repente eu ouvisse todos os risos e passarinhos e sons do mundo. Como se tudo mudasse do preto e branco para o colorido. Ainda sem acreditar direito, voltei ao meu lugar, arrumei minhas coisas e saí.

 

Fui no vestiário e comecei a guardar minhas coisas. Dez minutos depois, meus colegas saíam da aula e entravam . Preparavam-se para tomar a vacina para o primeiro campo. Me livrei”. “Fui dispensado”, disse pra eles. Foi horrível, era o único da intendência a ser dispensado. Muitos choraram, pois era a última chance de escapar do inferno. Saí antes que a raiva deles me fizesse cair duro dentro.

Encontrei outros três caras, tão atônitos como eu, a devolverem seus bagulhos. O bigodudo imbecil, nosso carrasco mor, todo simpático, ofereceu cafezinho. Filho da puta, agora quer ser amiguinho? Neguei qualquer coisa dele, com raiva. Arranquei com prazer as estrelas costuradas no meu uniforme. Devolvi a suposta honra, que nunca pedi para carregar em meus ombros. Disseram que fizeram um sorteio e a gente estava fora, se quisesse. Ah, tá! Deixa eu pensar

 

Assinamos e saímos correndo. Fomos num boteco na Correia Lima comemorar, correndo muito para eles não mudarem de ideia. Fizemos um brinde aos “voluntários” da UFRGS que nos liberaram de tal missão cruel, talvez até da Guerra do Golfo, fato que deixava nossas tias-avós apavoradas com a possibilidade de terem um parente lutando peloporpelo que, mesmo??

 

Cheguei em casa de joelhos, chorando de alegria. Fiz outro brinde aos caras que entraram no quartel, mal sabendo que um deles seria meu colega de trabalho, tantos anos depois.

 

Anos que, como se percebe, não apagaram da minha memória os dias mais surreais que vivi. Acredito que o exército possa ser uma boa opção para quem sonha com isso, mas amarrar o destino de quem quer distância do quartel é uma das atitudes mais cruéis. E o livre arbítrio para fazer aquilo que se quer, decidir que caminho tomar?

 

Eu aprendi muita coisa no quartel. Aprendi o que NÃO ser, como NÃO me comportar, aprendi como NÃO usar de autoritarismo, aprendi como NÃO fazer. A única lição que ficou é a certeza de que o indivíduo, dentro, aprende a pensar em si e por si. Não sei se isso é algo exatamente positivo. O que sei é que ainda me lembro dos gritos e humilhações a que éramos expostos. Aqueles meus colegas que ficaram talvez estejam hoje berrando e provocando, fazendo exatamente aquilo que odiavam. Um ciclo interminável de desdém ao outro. Fala quem manda, obedece quem deve.

 

Foi que engoli todos os sapos que me foram reservados. Calado, pensava em sumir daquele lugar de ideologia ultrapassada. E agora vomito, mais uma vez, tantos anos depois, cada um desses sapos, e ofereço-os a todos aqueles que apostam no discurso da humilhação.

 

Para todos aqueles que estão por fazendo suas pequenas atrocidades diárias, meus mais podres sapos e meus mais articulados impropérios.    

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “A ESCOLA DA HUMILHAÇÃO”

  1. Oi, Paulo! Acabei de ler o teu texto e fico muito triste com a tua experiência no CPOR, onde também servi e de onde saí oficial. Servi na Infantaria, nos estertores da ditadura militar (1981), e ainda fazia Jornalismo na PUC (!!!). Pra arrematar, ainda estourou o RioCentro.
    Concordo com parte das tuas observações acerca de voluntariado e de excesso de autoritarismo. Porém, isso mudou bastante desde que nós dois – entendo que estiveste no CPOR em 1991, correto? – pisamos lá. Naquela época, a mentalidade era, realmente, “elitizar” os alunos do CPOR, em face de pressões da oficialidade formada na AMAN.
    Contudo, a questão da humilhação é um caso à parte. Nunca fui humilhado – pelo menos, nunca me senti ou me deixei ser – enquanto vesti o verde-oliva. Mas lembro nitidamente de uma situação em que um colega fui submetido a uma seção dessas e segurou o rojão, estoicamente. Como qualquer um de nós, na época, faria.
    Realmente, ser milico é pra quem gosta. Mas enquanto a Constituição determinar o contrário…
    Abraço grande.
    César Hülsendeger

    Posted by César Augusto Hülsendeger | March 5, 2010, 17:35

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