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categoria: CONTEXTO

A CRÍTICA TALHADA POR MACHADO

“A crítica útil e verdadeira será aquela que, em vez de modelar as suas sentenças por um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia, procure reproduzir unicamente os juízos da sua consciência”

Em 1865, Machado de Assis publicava um pequeno – e lúcido – ensaio em que discorria sobre O ideal do crítico e acabava construindo uma espécie de crítico ideal. Machado, além de exímio romancista e contista, tinha um espaço no jornal para exercitar sua intelectualidade, tendo escrito outras várias críticas de interesse até hoje.

Imagine um cara de vinte e poucos anos, idade na época, apontando caminhos para a crítica brasileira. Pretensioso? Mais: imagine um cara que ainda não era o grande Machado de Assis (suas obras-primas só viriam mais tarde) destruindo O Primo Basílio, de Eça de Queirós, apontando os motivos pelos quais a obra do mestre português realista era fraca, enfadonha e centrada numa personagem títere, uma marionete (Luíza).

Pois ele teve essa coragem, e sublinhava com frequência aqueles nomes que ele achava que teriam valor no futuro (e muitas vezes ele acertou) e aqueles que não iriam sobreviver. Discutia o porquê de certos poetas não terem sido descobertos ainda pelo público (Basílio da Gama), enquanto outros (Tomás Antonio Gonzaga) eram mais “populares”.

Mais ou menos se hoje pensássemos por que alguns são apreciados pelo grande público, enquanto outros, muito bons, não conseguem seu espaço.

O crítico sempre foi visto com desconfiança no Brasil. De certa forma, esse porta-voz da intelectualidade, muitas vezes, acaba sendo alvo de ódio ferino por parte de seus leitores. É claro, há aqueles que justamente por odiar o crítico não podem viver sem ele. Paulo Francis foi um desses alvos, com repetidas acusações sofridas de ser elitista e conservador, promovia uma relação de amor e ódio descomunal. Diogo Mainardi está tentando pegar esse caminho, e muitas vezes a gente percebe o grande esforço que ele faz para ser odiado, porque o ódio movimenta esses sentimentos contraditórios e faz com que ele seja lido. Tudo em nome da polêmica.

Machado desaprovaria. Dizia que o crítico deve ser elegante e coerente, completamente imparcial – o que é cada vez mais difícil.

Aqui no sul são pouquíssimos os críticos que podem levar essa etiqueta. Nos meios impressos, dentro da área cultural, a futilidade e a adjetivação excessiva escondem, na maior parte dos casos, pseudo-críticos sofríveis, que sempre acompanham os mesmos tipos de eventos e personalidades. Só se fala em quem sempre se fala, num círculo vicioso eterno. Vez que outra surge um nome novo, que é visto ou como marginal (e ganha espaço por sua “excentricidade”) ou como quase cópia do que já existe (e ganha espaço por repetir o modelo “bacana” já arraigado).

Acompanho, em geral, críticas impressionistas, muitas vezes cercadas de imprecisões, dados absolutamente errados, maquiados com expressões estrangeiras para dar um toque “erudito”. Nem vamos falar de crítica televisiva… Aqui, isso praticamente não existe, e se pularmos para comentaristas econômicos, a situação é ainda mais triste, com meia dúzia de nomes completamente comprometidos ad infinitum com os veículos que representam e, invariavelmente, com os discursos mais conservadores e “direitosos”.

Deixemos esses pra lá. Na área cultural, que é que nos interessa, a crítica ainda engatinha no extremo sul. Há nomes legais, em geral fora do eixão impresso porto-alegrense, mas são raros.
Na verdade é difícil fazer crítica num país em que poucos podem ter acesso ao que é “criticado”. Por isso não tem como fugir dos rótulos de elitista, já que os escolhidos são contados nos dedos.

Do que Machado pregava, talvez seja mesmo a independência um dos pontos mais importantes, “o crítico deve ser independente – independente em tudo e de tudo, – independente da vaidade dos autores e da vaidade própria”.

Ah, a vaidade… já dizia o demoníaco Al Pacino em ADVOGADO DO DIABO. É ela quem move, infelizmente, a crítica. Poucos aceitam a “contracrítica”, pois muitas vezes os críticos se acham acima da verdade, mesmo que seja a verdade deles. E na vaidade até Machado sucumbia, quando algum leitor escrevia uma respostinha, ele não escondia a irritação em ser contestado, muitas vezes apelando para o velho artifício, tão comum a tantos críticos, não-concorda-porque-não-me-entendeu-direito.

Ele escreveu sobre alguns desafetos: “Que não entendessem, vá; não era um desastre irreparável. Mas uma vez que não entendiam, podiam lançar mão de um destes dois meios: reler-me ou calar”.
De toda forma, todos somos de certa maneira críticos, expressando em maior ou menor forma nossos argumentos. Em casa, no trabalho, com os amigos, opiniões vão e vêm, se cruzam. Causam debate, promovem outras discussões. Há o direito da réplica. É por isso que a internet é importante pra isso, pois é sempre possível enviar um e-mail para discutir aquilo que o outro escreveu e com o qual não concordamos. O que não ocorre, via de regra, nos meios impressos. Lemos, ficamos indignados, mas nossos comentários nunca serão suficientemente consideráveis para entrarem na discussão. A contrapartida é que quase todo mundo hoje tem um blog, um fotolog, um orkut, e adora desfilar um rosário de impressões, muitas vezes carentes de aprofundamento, sobre tudo. Ou seja, é todo mundo falando sobre quase tudo. Vá ao google, meu filho, e veja sobre o que eu estou falando.

“A tolerância é ainda uma virtude do crítico”, pena que poucos a exercitam. Para terminar, lembremos Machado outra vez, que reforçava (utopicamente) a necessidade de uma crítica forte, construtiva, até como auxiliar no surgimento de novas obras. Dizia que o crítico “deve saber a matéria em que fala, procurar o espírito de um livro, escarná-lo, aprofundá-lo, até encontrar-lhe a alma, indagar, constantemente as leis do belo, tudo isso com a mão na consciência e a convicção nos lábios, adotar uma regra definida, a fim de não cair na contradição, ser franco sem aspereza, independente sem injustiça…”

Que assim seja!

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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