Vi ela e logo me espreguicei. Não que esse eu estivesse com sono ou fadigado, eu não estava, até porque o ‘dia’ recém havia começado e eu estava com toda disposição. O que foi mesmo é aquela básica espreguiçada afoita de ansiedade, aquela, por não a ver há uma fatia significativa de tempo. A sensação que tinha era a de como se eu estivesse prestes a ser apresentado a alguém que quisesse conhecer muito, e há muito tempo.
Outro motivo pelo fato de me espreguiçar foi o de que mais uma vez [em menos de dois meses] eu estava num lugar desconhecido às minhas vistas com mais gente estranha à minha volta correndo pra lá e pra cá e todos conversando freneticamente. Papéis e mais papéis por todos os lados, às pilhas. Ambiente adventício à primeira vista. Escuro e amplo. Cheio de mesas separadas em ilhas, atenuando ainda mais a formação de círculos fechados [as famosas panelas]. Minha sorte aí, é que desta vez eu já estava o que poderia chamar de ligeiramente ligado e não mais me sentia em uma situação hostil como numa não tão antiga ocasião. Uma hora se pega o jeito praquelas coisas que ainda não se sabe. Eu dessa vez peguei, e bem.
Tenso. A hora que me deparei diante dela. Veio-me rapidamente um flashback de tudo aquilo que havíamos vivido há pouco tempo. Foi conciso [uma lástima], no entanto, tão magnífico. Me passou aquele filmezinho naquele curtíssimo lapso de tempo, assim como um trailer no cinema em que são mostradas só as melhores, mais chocantes e fortes tomadas de todo o roteiro.
– Oi! – Ela disse.
– Oi, c-co-comé-que-tá? – Cumprimentei-a, gaguejando.
Na hora não tivemos tempo pra falar, até porque tínhamos mais o que fazer e, naquele dia, tinha bastante serviço. E outra coisa. Antes de pararmos pra alguma conversação, com mais calma, eu tinha que me adaptar novamente [não a ela, mas sim àquele lugar]. Quando houve uma pequena brecha de tempo fomos ao mercado atrás de algo pra comer. Não somente nós dois, mas todos. Foi aí que me aproximei…
– O que tem de bom pra nós? – Eu disse.
Falei por trás do ouvido fazendo-a dar quase que um pulo na hora. Depois da comida, do susto, e outras coisas, rolou uma ótima prosa, feito dois amigos. Uma química rolava no ar, dava pra sentir. Como uma espécie de amizade cultivada há anos. Muito estranho, até porque não tínhamos tido tempo e oportunidades suficientes para o desenvolvimento de tanta intimidade e ali, por incrível que pareça, nós falamos intimamente.
Pois bem, chega a hora em que é necessária a retomada da rotina habitual, voltar a trabalhar, e no nosso caso, a hora havia chegado. Tão depressa [se bem que nossa conversa só aconteceu durante o tempo de queima de um Marlboro, coisa de uns cinco ou sete minutos]. Quando nos separamos e sentamos em nossas respectivas mesas ficou se passando na minha cabeça continuamente a mesma frase, umas mil vezes por minuto.
– Porra! Por que tivemos que cessar o papo logo agora? Tava tão bom, tão maravilhoso.
Essa quase aforismática frase permaneceu martelando minha moleira até que surpreendentemente aconteceu algo inesperado. Meu celular tocou. Mas não era uma ligação. Era outra coisa. A chegada de um sms. E não se tratava do recado dum amigo, colega, etc. Era enviado pela própria. Ela mandou. Sério, após um tempo sem nem ao menos vê-la e muito menos receber torpedo algum daquela doce figura eu fiquei pasmo com a situação. Não adentrarei muito aos detalhes da troca de mensagens. Direi só o imprescindível, de forma parafraseada e resumida para um bom entendimento… Seguem as mensagens:
1) – Por um momento me deu uma vontade de falar uma coisa… Lá lá lá… – Ela escreveu.
2) – E por que não fala? – Eu respondi.
3) – E eu lá tenho cara pra falar uma coisa dessas [risos]. – Ela retrucou.
4) – Então não fale, faça. – Eu disse.
5) – Não sou caradura desse jeito. – Ela respondeu.
6) – Deixa pra mim então. – Finalizei a conversação.
Nossa! Aquelas próximas horas seriam as mais longas e demoradas que eu viria a passar, pois já estava ansioso somente por tê-la visto, em seguida por termos conversado daquela maneira, com troca de olhares e tudo mais. E agora, porque eu sabia o que estava prestes a acontecer. Concentração? Pra que tentar? Eu não conseguia me centrar em mais nada. Patavina alguma me interessava. Só aguardava ansiosamente que o ponteiro pequeno chegasse ao sete e o grande ao doze, queria que o relógio acusasse sete horas. Eis que finda o expediente. Fui reto na direção dela…
– Vem cá, aquela mensagem é verdadeira? Aproximei-me e perguntei.
– Ai guri, não me deixa sem jeito. – Ela falou.
– Vem aqui. – Disse puxando-a pros meus braços.
(Continua…)
Thiago Peres - Músico, escritor. Em meio a um mar de livros pensantes e por entre acordes flutuantes vivo. Leitor de Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Charles Bukowski, Shakespeare, Claudia Tajes, Milan Kundera. Ouvinte de Strokes, Beatles, Ramones, Nando Reis, Kooks. Blog: "SONETEARE".
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