Esses últimos meses foram um tanto puxados, bem difíceis. Exigiram-me um sobrenatural esforço e extrema dedicação. Sacrifício esse em vão. Nada mudou. Está incólume. Começa dia, finda dia, começa de novo. Por aí vai. É a mesma coisa, tudo exatamente igual, continuamente. Tu não te esfumaças da minha cabeça. Está incrustada, rebitada, soldada. Não é tão simples assim esquecer-se de alguém quando ainda se acondiciona um amplo apetite sentimental. Sabe, quando se ama veramente é extremamente complexo de lidar. Complicado.
Algo realmente difuso e, é completamente desconforme do que uma quase generalizada parte do povo fala, e da boca pra fora. Supõem ao certo que deletar ou descartar uma afeição é assim: pega-se um punhado do que se plantou, cultivou, colheu e preza muito. Junta tudo, sem esquecer daquilo que tem um papel fundamental na vida de todos – amor – Embrulha-se numa caixa de papelão e deixa presa a uma sacola dependurada na cerca do portão da fachada do lar, aguarda o lixeiro vir pegar, e já era. Acabou. Errôneo engano. Não é esse o procedimento a seguir quando se trata do que tenho guardado por ti. Não é assim passar uma borracha por cima e deu. Tá pronto.
Foram [e são] esses sentimentos fortemente nutridos e muito bem alimentados – como um bebê em fase de crescimento – às doses diárias de carinho, afeto e um bocado de paciência e compreensão. Então não me venha com essa droga de papo furado que vai passar logo… Que tudo passa e blábláblá… Se com você é assim tudo bem, comigo não.
Pode se falar deste modo, com descaso, para um feixe de pífios e efêmeros sentimentos – que não é o meu caso em hipótese alguma – Eles são variados e inconfundíveis, são inoxidáveis e inexoráveis, resistentes ao tempo e outros fatores usuais que possam querer vir a interferir de qualquer forma que se possa prognosticar.
Quando uma pessoa se encontra numa situação aterradora, desesperadora. Literalmente encurralada e sem saber pra onde correr e nem como agir, – ou fugir – ela pensa não mais infindáveis tentativas de êxodo pra não se lascar mais. Foi o que eu fiz. Juro que tentei com todas as minhas forças achar uma saída. Procurar uma fresta pra pular fora. Desobstruir meu coração, e, assim, quem sabe, conseguir não te respirar mais a cada segundo, nem te aspirar tão loucamente. Não sei se tive êxito. Na real, não tive. Pode ser que eu tenha fraquejado quando lhe vi novamente.
Pode ser que lá no fundo, no mais recôndito espectral de mim, enquanto eu buscava outros lugares mais apartados que não me trouxessem tua figura. Quando escutava outras músicas, que não as nossas, e que não me fizessem cantar pra ti. Quando eu ambicionava outra boca, outros afagos, outros quadris. Enfim, quem sabe quando eu fazia isso, ainda não havia te eliminado inteiramente e, ainda lhe tinha guardada no meu peito de uma forma bem mais obtusa do que poderia supor. Quem sabe…
Estou angariando oxigênio por aí, pois está próximo do impossível continuar expirando algum ar por aí que não o teu. Não sou bom com essas coisas. Cansei de querer não ter mais você, vamos abandonar tudo o que aconteceu. Começar tudo de novo. Só que dessa vez direito. E pra fazer valer.
Thiago Peres - Músico, escritor. Em meio a um mar de livros pensantes e por entre acordes flutuantes vivo. Leitor de Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Charles Bukowski, Shakespeare, Claudia Tajes, Milan Kundera. Ouvinte de Strokes, Beatles, Ramones, Nando Reis, Kooks. Blog: "SONETEARE".
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