OU ANA CRISTINA CESAR
Fotografo por trás dos vidros
da minha janela
o mundo lá fora
vazio, distante
Quando revelo as fotos,
Vejo o meu reflexo em todas elas
O ator Paulo José, nos anos 80, possuía um programa na Rede Globo chamado Caso Verdade. Milhares de brasileiros enviavam suas histórias, quase sempre trágicas, para serem analisadas e virarem drama. Quem fazia a apreciação crítica era Ana Cristina Cesar. É ela quem envia um dossiê destruindo a qualidade do programa. Paulo José, achando absolutamente pedante os comentários no documento daquele tal de A.C. César, foi tirar satisfações, à procura de um Antonio Carlos, e encontrou uma jovem bonita, que o encarava nos olhos.
Esta história é uma das que aparecem em cena no poético espetáculo Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar, espécie de tributo que o ator, nascido no Rio Grande do Sul, concede a uma tradutora e poeta muito talentosa e pouco conhecida no nosso país. Quando, alguns meses mais tarde, Paulo descobriu um livro de poemas chamado A teus pés, percebeu de quem ele era. Quis encontrar a sua antiga “inimiga”, mas foi tarde demais. Com 31 anos, Ana havia se suicidado.
Ana Kutner, filha de Paulo com Dina Sfat, é a Ana Cristina Cesar na peça. Sentado ao lado do palco, tendo em volta uma série de gravações, lendo poemas enquanto o público se acomoda no novíssimo teatro Oi Futuro Ipanema, Paulo José está soberbo, sendo ele próprio e vários outros, confabulando com sua filha – o que garante uma química maravilhosa – e tratando com respeito e reverência a obra da poetisa carioca. É interessante o diálogo que ocorre entre os poemas ditos por Ana no palco e os comentários tristes, irônicos, bem-humorados de Paulo.
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
É porque muitas coisas não possuem, de fato, explicação. Longe de tentar encontrar situações que justificassem o ato do suicídio, a dupla passeia pela obra e pela vida de A. C. Cesar, suas idas e vindas ao Brasil, sua estada na Inglaterra, seus medos adolescentes, suas dúvidas na maioridade. Rotulada como parte da geração anos 70, da trupe de Caio Fernando Abreu, Ana recusava etiquetas, ao mesmo tempo em que orgulhava-se da companhia “marginal”.
Poucas vezes a junção do vídeo com o teatro foi tão feliz. Em muitos espetáculos, o tal momento multimídia por vezes resulta quase desnecessário. Em Um navio no espaço, não. Há pequenos capítulos que, muitas vezes, recebem a ajuda de imagens para serem melhor contados. E também surge Ana em imagem ao vivo, em cena, deitada, numa fusão muito bem elaborada.
Denso e emocionante, Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar é imperdível (e possui preços populares: 20 reais). A belíssima dramaturgia de Walter Daguerre e o cenário (sempre se fazendo e desfazendo) de Fernando Mello da Costa merecem destaque, além da direção geral de Paulo José, mas nada é mais impactante, nem mesmo a impecável atuação dos atores, do que as palavras de Ana Cristina Cesar que vagam, pesadas ou leves, por aquele oceano chamado poesia.
Não sou idêntica a mim mesma
Sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar, sob o mesmo ponto de vista
Sobre o espetáculo, disse a exigente crítica teatral Bárbara Heliodora: “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar é um espetáculo inteligente e encantador, com méritos na forma e no conteúdo, pois texto e interpretação se unem para uma ótima experiência teatral, que muito merece o nosso aplauso”.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras.
Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si.
Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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