Há coisas fantásticas, não há? Esse é o slogan de uma campanha de muito sucesso aqui em Portugal.
Pois há, há coisas fantásticas. Uma delas é não ter nunca imaginado que assistiria, aqui em Lisboa, a uma das melhores peças teatrais da minha vida. E olha que eu tenho uma certa bagagem no assunto, pois adoro teatro. E daí vem uma grande dificuldade ao escrever um texto. Como passar a emoção sentida sem parecer elogioso ao excesso, sem um desfilar de adjetivos? Deixar o texto dormir ou os ecos do espetáculo se acalmarem? Ou aproveitar o furor dos sentimentos e liberar as palavras? Não sei. O que sei foi o que eu senti.
A façanha? The Pillowman, ou O Homem almofada (travesseiro, para nós, brasileiros), texto do londrino Martin McDonagh, melhor peça em Londres em 2004, elogiadíssima na temporada norte-americana, em 2005, com Billy Crudup e Jeff Goldblum no elenco, que infelizmente já se despede dos palcos lisboetas, depois de mês e meio de apresentações, coordenada pela mão segura e criativa de Tiago Guedes. Tiago, 30 e poucos anos, é um dos grandes e jovens talentos das artes lusitanas. É dele o interessantíssimo filme COISA RUIM. E é dele a adaptação e a direção dessa intensa montagem.
São muitos os méritos de Tiago. Levar à cena um texto de tão alto nível poderia ser um perigo, se não se estivesse cercado por um grupo coeso na concepção de toda a obra. A começar pelos atores, passando pela iluminação, pela música, pelo cenário e pela produção. E tudo funciona à perfeição neste espetáculo do Teatro Maria Matos.
Um homem sentado com um saco de papel na cabeça. Dois policiais entram na sala. Perguntam por que ele não tirou o saco. Ele responde que não sabia se isso era possível. De início, a tentativa desse homem respeitar a lei num país de regime totalitário. Um país qualquer, com uma ditadura entre tantas.
Esse homem é Katurian Katurian. Ele é um escritor que está a ser investigado. Interrogado. Torturado, física e psicologicamente. Aos poucos, num jogo de gato e rato, onde emerge a violência da conduta do polícia bom, Ariel, e do polícia mau, Tupolsky, (de imediato, o público não percebe essa relação, pois o comportamento difere da dita personalidade. Assim, o bom é agressivo e o mau, observador), Katurian descobre que suas histórias negras envolvendo mortes com crianças serviram de inspiração para três assassinatos. É revelado ainda que seu irmão, Michal, um atrasado mental, como eles dizem, está na sala ao lado. E o polícia bom (mau?) vai até lá para torturá-lo.
Os gritos do irmão e o cinismo do polícia mau (bom?) acabam deixando Katurian em desespero. As suas histórias são trazidas em relatos assustadoramente poéticos, como a bela narrativa em que um menino tem todos os dedos do pé arrancados por um machado, ou a da menina que comeu homenzinhos de maçã com lâminas dentro. Essas histórias menosprezadas por Tupolsky são defendidas com humildade pelo escritor (na montagem nova-iorquina, o autor é arrogante), até que Katurian é levado à sala onde se encontra o irmão. Lá, juntos, rememoram outras fábulas, como a do porquinho verde e a que dá nome ao espetáculo, história de um homem muito, muito grande, todo feito de almofadas, com a difícil e importante missão de convencer criancinhas (que ele sabe que terão uma vida infeliz no futuro) a se atirarem para uma morte (pseudo)acidental. Essa é a história preferida do irmão doente. E Katurian a relata em minúcias.
A partir daí, verdades e mentiras se confrontam. O teor da ficção de Katurian é questionado (até que ponto a arte influencia a vida real?) e a opressão dos carrascos leva Katurian e a platéia a um clima claustrofóbico. E de lá, surgem os gritos do passado, que revelam, a cada tempo, sua própria verdade. Até que The Pillowman acaba. Arrasa.
O texto de McDonagh é de uma coerência inovadora absurda. Ao misturar o imaginário dos contos infantis com a perversidade, o autor constrói personagens humanamente monstruosos. Como pode um frágil escritor e correto cidadão ter idéias tão perturbadoras na sua ficção? O que há por trás dos violentos polícias? Com diálogos soberbos, The Pillowman é um mergulho à escuridão de cada um, a vasculhar antigos fantasmas carentes de um exorcismo. E uma aula de amor à literatura e a sua sobrevivência.
Entretanto, esse bom texto não teria valia não fosse o extraordinário elenco. Desde que cá cheguei, tenho ouvido de alguns portugueses que um dos grandes problemas de suas novelas e filmes são os atores. Que não há bons atores como no Brasil. Basta assistir a The Pillowman para essa teoria cair por terra. Não há bons atores ou não há boa direção de atores? Porque esse quarteto formado por Gonçalo Waddington, Marco D’Almeida, Albano Jerônimo e João Pedro Vaz está irrepreensível e dá uma aula de atuação.
Talvez seja injusto apontar um ou outro destaque. Waddington constrói um Katurian apaixonado por sua literatura. Junto com Marco D’Almeida, que faz um deficiente mental absolutamente convincente, tem cenas viscerais. Das narrações de suas histórias, recheadas de um amor terno, à proteção do irmão doente, a dupla tem um timing incontestável. Albano Jerônimo, o Ariel, e João Pedro Vaz, Tupolsky, é outra dupla de grande desenvoltura. A violência quase infantil do primeiro e uma certa tranqüilidade ameaçadora do segundo compõem dois policiais típicos de qualquer ditadura, sedentos pelo sofrimento do outro, ainda que, contraditoriamente, com causas humanamente aceitáveis. Vaz mantém sua atuação irônica até o final, mas o personagem de Jerônimo cresce, a partir do segundo ato, e domina as cenas finais.
O cenário de Jerônimo Rocha, Joana Faria e Nico Guedes é outro capítulo à parte.
Primeiro, apenas uma mesa e algumas cadeiras. Ao fundo, uma tela branca e um quadrado enorme negro. Sombras de escadas e formas gigantescas que apequenam o escritor interrogado: são os policias que entram pela porta. Assim que Katurian dirige-se à sala do irmão, surge, naquele quadrado, suspenso, uma cela azulejada branca, totalmente branca. Apenas as cores dos irmãos, vivas pelo sangue do escritor. É sensacional a utilização daquele espaço, tão bem escamoteado e tão obviamente explorado. No segundo ato, a tampa deste quadrado negro serve de tela para a projeção de uma história assustadora: a menina que queria ser Jesus Cristo. A animação, concebida pelo mesmo trio do cenário, é ótima. E essa historinha, narrada por Katurian, é fundamental para a resolução dos mistérios.
Para o cenário funcionar, a iluminação é fundamental, a cargo de José Álvaro Correia e António Pedra. E ela se tinge de verde quando é relatada a história do porquinho diferente, com pingos de chuva, e se transforma em vermelho, em preto, em branco. Luzes e ausências. Também a música de Hugo Leitão é bela. E os efeitos sonoros fundamentais, como a arrepiante reunião dos gritos das crianças que se atiraram à morte pela mão do homem almofada.
Uma platéia tocada pela emoção de uma representação de primeiro nível, arrebatada, aplaude de pé a eficiência de todo o espetáculo. Uma vontade de ver outra vez, e outra vez. Na saída, mais uma pequena surpresa (que mostra, novamente, o cuidado da produção): é distribuído um texto de Katurian K. Katurian. Um conto apenas citado pelo irmão, que o encontrou quando vasculhava as coisas do escritor, que narraria um terrível acontecimento no passado de ambos. E ao lermos, já fora do teatro, nada, nada é o que parece.
No fim fui desavergonhadamente elogioso, mas absolutamente coerente com tudo o que senti e vivi em duas horas e meia das mais intensas. Poderia ter escrito apenas: The Pillowman, imperdível. Mas seria pouco, muito pouco.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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