São Paulo
Direção: Marcelo Braga e Marcelo Denny
Elenco: Vivian Bertocco, Tay Lopes, Lílian de Lima e Lui Strassburger
O texto de João Silvério Trevisan traz, geralmente, uma tensão interna: personagens que não sabem o próximo passo. Seres perdidos, sem rumo. Lembra, ainda que sem a genialidade estilística, a temática de um Caio Fernando Abreu. Sim, pois Trevisan sempre trabalha com a solidão, os conflitos sexuais, os relacionamentos que começam e que terminam.
Levar este texto para o palco foi tarefa dos Marcelos Braga e Denny, diretores de Ritual Íntimo, participante do 15º Porto Alegre em Cena. Baseado na obra de contos Troços e Destroços, o espetáculo acerta em tudo. Os nove contos estão embaralhados e surgem de todas as maneiras: gravados em áudio, lidos ao vivo ou vividos pelos quatro bons atores, com destaque para Vivian Bertocco. Aliás, o embaralhamento ficção-realidade atinge também os atores, que se apresentam em depoimentos falando sobre amores, falando sobre si mesmos, nomeando-se no palco.
Amores e desamores é o tom da peça. Durante uma hora, os personagens conversam, brigam, apaixonam-se e desapaixonam-se entre si. O cenário e os objetos de cena são um caso à parte. A equipe traz um móvel, uma espécie de cômoda gigantesca que, primeiramente, repousa no palco como se fosse uma cama de casal grande. Aos poucos, ao cair do lençol, as gavetas transformam-se em degraus, e os atores circulam por cima e pelos lados do móvel. Também há repartições, mininúcleos nos quais os atores entram e sentam, uma espécie de local sagrado onde contam seus segredos. Porém, a melhor sacada são as malas que compõem o palco. A imagem da mala simboliza a partida, e os personagens realmente vivem como se já estivessem indo embora. As malas também são abertas e trazem outros objetos de cena importantes, além de, juntas, formarem uma mesa, por exemplo.
A voz de um ator dá lugar à de outro. Os discursos misturam-se. O sofrimento de quem perde, de quem parte, é impulsionado pelo texto cru de Trevisan. A direção propõe, com criatividade, alternância nos textos. Há contos que são dramatizados simultaneamente. Em outros, os personagens repetem o texto, alternando-se enquanto casais. Contudo, o humor negro, irônico, está sempre presente, provocando riso da platéia.
Ritual Íntimo é um teatro inventivo, simples, que traz a contemporaneidade das relações instáveis, o medo da solidão em contraponto com a necessidade quase egocêntrica de se sentir dono do seu nariz, pequenas dilacerações que questionam, ao mesmo tempo em que divertem.
( * * * * * )
Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao PORTO ALEGRE EM CENA
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
Comentários
Sem comentários para “RITUAL ÍNTIMO”
Deixe um comentário