A MAR ABERTO
Direção: Henrique Fontes e Danúbio Gomes
Com: Alex Cordeiro, Bruno Coringa, Doc Câmara, Paulo Lima, João Victor
E o mar vira sertão quando almas atormentadas ficam confinadas com seus próprios fantasmas. O representante do Rio Grande do Norte no 16º Porto Alegre em Cena, A MAR ABERTO, tem seu maior trunfo na criativa concepção cênica para tratar de um tema difícil, com leveza e lirismo.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem tempo real.
Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele. Um joão-de-barro cantou. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim… Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu ia-voava reto para ele…
O texto de Henrique Fontes, livremente inspirado em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, transfere os conflitos dos jagunços do sertão para um grupo de pescadores, em alto mar. Entre eles, o capitão da embarcação, José Hermílio, exorciza seus sentimentos mais escondidos. No meio da imensidão do oceano, a pequenez do indivíduo acentua-se. A solidão inunda a alma. Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas – isso procuro.
E tudo se transforma quando entra em cena Júlio de Joana, jovem de dezenove anos que trocou uma “vida de doutor” pela incerteza da navegação. De fato, nada se transforma, apenas entra em ebulição, acionando o desespero naquela atração proibida. E se o “desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há”, desta vez José Hermílio, homem rude já passado dos trinta, que possui uma filha com a mesma idade do garoto, não consegue calar-se. Assume-se, portanto, como porta-voz desse relato, destinado a um interlocutor, função também desempenhada pela plateia.
Ainda que não se explique de todo como aquele garoto da cidade veio parar naquela embarcação, pequenas derrapadas no roteiro perdem a importância frente à sensibilidade ao relatar o tormento daquela dupla que se sente à deriva: o garoto não quer uma vida de mentiras, e o capitão sabe que foi apenas isso que teve. Duas mulheres, filhos, mas nunca amou ninguém.
De mim, pessoa, vivo para a minha uma mulher… Em Diadorim penso também – mas Diadorim é a minha neblina…
O início do espetáculo é impactante. A iluminação é também personagem, e os lampejos de luz colocam, alternadamente, no holofote, um homem amarrado que luta contra si próprio e outro que se masturba. Ambos gemem, ambos gritam. E lá está, de forma escancarada, a dualidade gozo e sofrimento, que vai acompanhar a jornada daqueles seres.
A narração do espetáculo cabe ao atormentado capitão, mas uma das boas ideias é a alternância dessa voz narrativa, que é incorporada também pelos outros personagens: são cinco os homens em cena. Algumas vezes, as palavras ecoam no palco, pequenos desejos confessados, e é como se os outros personagens apenas ali existissem para contemplar as fantasias homoeróticas do capitão. Por segundos, os homens tocam a si próprios com prazer, desnudam-se, mas aqueles momentos são efêmeros, esvaem-se, e a realidade pesa para José Hermílio. Em outras passagens, o narrador reina soberano no palco, após os outros personagens terem seus gestos congelados, o que também agrava o estado solitário daqueles homens.
Interessante também é a apresentação de Júlio de Joana. Panos da vela são ajustados e transformam-se em tela, e ao fundo, num jogo de sombras, surge um vulto feminino, por conta de um casaco que parece um vestido, mas depois se revela masculino.
Latas, ganzás, sementes e outros objetos viram melodia, tocada ao vivo pela trupe. Na bela cena final, um dos atores toca flauta, um som doce, que grita naquele meio áspero de negações e esconderijos. Há também cordas penduradas no palco, que tanto remetem a um barco, como a um terreiro de sacrifícios. Nestas cordas, os homens penduram-se, aprisionam-se, balançam-se. E isopor, que garante um efeito eficiente não de neve, mas de gelo que despenca em fúria.
Uma tempestade causa o naufrágio; José e Júlio encontram-se, permitem-se, beijam-se, e depois de perdem. O narrador, nesta jornada de transformações, volta a terra após suas perdas, e promete nunca mais navegar. Mas navegar é preciso. Viver também.
O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.
Com uma criatividade cênica acima da média, bom desempenho do elenco – apenas o ator que representa Júlio de Joana perde-se um pouco entre a fragilidade do personagem e a apatia – excelente trilha sonora e uma honestidade que vem da alma, A MAR ABERTO é uma das gratas surpresas deste Festival.
Nos agradecimentos, o grupo promoveu um belíssimo e emocionado depoimento. Alguns dos atores mal disfarçavam suas lágrimas. Era a última apresentação no Em Cena, e era visível a alegria por atravessar esse Brasil e unir os dois Rio Grandes em nome da arte. Nós, os do Sul, é que agradecemos.
Existe é homem humano. Travessia.
Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao PORTO ALEGRE EM CENA
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
caro Paulo Ricardo,
Obrigado pelo empenho e generosidade ao escrever tão bela crítica de A Mar Aberto. Para nós, que apenas começamos a navegar nessas águas do teatro, vivemos emoções fortes com trocas tão ricas quanto essas.
Agradecido a todos do Poa em Cena e do RS que tão bem recebeu o RN
Um abraço Potiguar.
Henrique Fontes