FRANÇA
Direção: Patrice Chéreau
Com: Dominique Blanc
A apresentação de Dominique Blanc, em La douleur, com direção de Patrice Chéreau, na noite de quinta-feira, no Theatro São Pedro, espetáculo integrante do 16 Porto Alegre em Cena, era aguardada com muita expectativa, e nem a chuva intermitente afastou o público que praticamente lotou o teatro. Frisson justificado em virtude da magnitude de ambos os artistas: Dominique Blanc – ganhadora de três prêmios César por melhor atriz coadjuvante, MILOU EN MAI (1990), INDOCHINE (1992), CEUX QUI M’AIMENT PRENDONT LE TRAIN (1998) e um prêmio César como atriz principal, STAND BY (2000), detentora de extensa filmografia, destacando-se RAINHA MARGOT (1994), ganhador de cinco prêmios César, que também teve direção de Patrice Chéreau – ator, diretor, produtor e cineasta, ganhador do Prêmio César por melhor direção em CEUX QUI M’AIMENT PRENDONT LE TRAIN (1998), Urso de Ouro por melhor filme em INTIMACY (2001) e Urso de Ouro por melhor direção em HIS BROTHER (2003).
O texto encenado é um relato autobiográfico de Marguerite Duras, em que a escritora, na condição de personagem, descreve toda sua angústia diante da espera e da incerteza do retorno do marido preso no campo de concentração. A densidade, os devaneios, as incertezas, o medo e a angústia de Duras estão absolutamente bem retratados na encenação de Blanc, que opera com maestria na condução de todos esses sentimentos da protagonista. Com a exata medida na projeção, impostação vocal e com um gestual contido, a atriz dá uma aula de teatro em cena.
A narrativa não linear, permeada por devaneios e relatos da protagonista, somando-se ao fato da dificuldade do idioma, apesar da legenda em tradução simultânea, não desmobilizaram grande parte da plateia que permaneceu atenta, do início ao fim, com exceção de alguns espectadores que infelizmente levantaram das suas poltronas e pouco gentilmente fizeram ruídos, seja pelos passos em direção à saída, seja pelo bater de portas.
A direção de Chéreau é discreta e possibilitou que Blanc demonstrasse ao público o porquê é considerada uma das grandes atrizes francesas da atualidade, realizando um trabalho essencialmente de ator, na falta intencional de maiores recursos audiovisuais que pudessem apoiar a sua performance no palco. A palavra é também a protagonista do espetáculo, motivo pelo qual poucos adereços são utilizados em cena, apenas algumas cadeiras, uma mesa e alguns objetos menores. Desta forma, o público, muitas vezes, acostumado com recursos multimídia, ficou restrito a uma concepção de teatro no seu sentido mais puro: a representação pela expressão oral.
Com toda a certeza, La douleur é um espetáculo que propicia uma reflexão sobre a dor em razão do afastamento de um grande amor e a incerteza do seu reencontro. Por conta da excelente atuação de Dominique, muito realista no sentido da exposição dos sentimentos mostrados ao longo da narrativa, os espectadores se tornam cúmplices desta história de amor interrompida pelos tristes relatos do Holocausto. Apesar de muito explorada pelas mais diversas mídias, esta temática do Holocausto, quando trazida com a competência, seriedade e densidade devidas, como foi o caso desta montagem, será sempre bem-vinda a qualquer tipo de plateia e em qualquer tempo por se tratar de um tema de extrema relevância para a humanidade, ainda que estejamos muito distantes da década de quarenta do século passado, período retratado pelo texto.
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