CANADÁ
Direção e coreografia: Paula de Vasconcelos
Com: David Rancourt, Sylvie Moreau, Laurence Ramsay, Natalie Zoey Gauld, Alexandre Goyette, Edward Toledo
Abriram-se as cortinas para o 16º PORTO ALEGRE EM CENA. Na noite de estreia, o Teatro do Bourbon Country estava lotado para receber a montagem da companhia canadense Pigeons International: Kiss Bill. Uma referência clara no horizonte criativo: KILL BILL, de Quentin Tarantino.
A própria idealizadora do espetáculo, portuguesa de nascimento (foi com quatro anos para o Canadá), Paula de Vasconcelos, afirmou que se interessa muito mais pelas motivações do diretor norte-americano do que por seus filmes e, mais ainda, pelo fascínio que essa violência sangrenta de Tarantino, de um requinte artificial com cores pop, promove no seu público fiel.
Kiss Bill autoproclama-se como uma tentativa de substituir essa violência pela compaixão e pela humanidade. O cenário é grandioso e remete-nos, obviamente, ao ambiente oriental de KILL BILL: um gigantesco painel que lembra as casas japonesas, e que também serve para um interessante jogo de sombras (infelizmente pouco aproveitado no espetáculo).
Os atores Alexandre Goyette e Sylvie Moreau estão sentados no centro do palco, em poltronas. Ele é um diretor de sucesso, famoso por sua temática de violência gratuita e por seus filmes descerebrados. Ela, sua agente, que lhe passa a agenda da semana, com uma velocidade de fala frenética, como os diálogos de Tarantino. Entre os dois atores, a expressiva Moreau (rosto conhecido para amantes do cinema mais alternativo – e também alguns seriadinhos de TV) rouba a cena e ainda, de quebra, faz uma belíssima interpretação à capela de Bang Bang (My baby shot me down).
As esquetes dos atores, que também ensaiam alguns passos de dança, são entremeadas com as perfomances dos bailarinos: uma mulher e cinco homens. Outra vez, é desleal o embate entre os sexos. Natalie Zoey Gauld ofusca seus parceiros em cena, com uma intensidade explosiva e, ao mesmo tempo, uma delicadeza terna (em contrapartida, os homens em cena não alçam voo, praticamente repetindo movimentos e pouco emocionando o público). Esses números musicais possuem uma presença metarreferencial, pois funcionam também como a concretização imagética da conversa entre diretor e assistente.
Evidentemente, outra marca registrada de Tarantino se faz presente: a trilha sonora. O diretor é famoso por escolher a dedo as músicas que entram em suas produções, e Vasconcelos pinça dos dois “volumes” de KILL BILL algumas músicas emblemáticas, especialmente a já citada Bang Bang (que ilustra o único – e ótimo – número feito no jogo de sombras do painel), mais Don’t Let me be misunderstood e algumas instrumentais. Inclusive, essas músicas se repetem, o que vai ao encontro desta descerebração redundante do diretor (ou diretores). O primeiro número musical é de fato um bom começo: executivos parodiam movimentos machos, fundindo-os com a singeleza do feminino ao som do grande clássico do grupo Santa Esmeralda. Outro momento que conquistou a plateia foi aquele que procura reproduzir algumas das 200 mortes dos ninjas em cena, exigência do diretor para o seu filme. Apostando na mímica, os atores começam com a violência de duelos com diferentes armas, e terminam em tom farsesco infantil, com direito à produção de “efeitos sonoros” tão comuns em brincadeiras de criança. Também o solo musical do ninja que coloca bombas – como aquelas velas de aniversário que expelem faíscas – é um dos maiores lampejos criativos do espetáculo.
O maior pecado de Kiss Bill é levar-se muito a sério da metade para o final: para quem parodiava despretensiosamente Tarantino, a segunda parte da montagem deixa muito a desejar. É quando entra o tal espírito positivo, que procura substituir a violência gratuita do primeiro ato (ainda que não haja essa divisão cênica) por uma mensagem edificante. Embora a crescente sutileza do tom de Kiss Bill traga uma certa ternura (evidenciada primeiramente no cenário, quando da criação de uma espécie de mosaico de folhas à sombra do grande painel e, posteriormente, transformada em um belo muro verde, quando as portas desse painel abrem-se), nada de absolutamente exuberante surge em cena. Os números musicais, quando perdem uma certa graça, também perdem um pouco do interesse, pois a coreografia de Vasconcelos peca em algumas finalizações. Há que se registrar alguns bons momentos, como por exemplo, o da dança lenta com todo o elenco no palco e o que termina com o beijo da “personagem” em Bill.
Porém, esse possível belo final é adiado, e surge mais um número. E outro. E então o cansaço de quase duas horas vence a tal mensagem edificante.
Referências visuais, trilha sonora, velocidade nos diálogos… tudo estava ali. E Kiss Bill fechou as cortinas com uma recepção fria do público quase sempre ensurdecedor do Em Cena. Nada de gritinhos, nada de bravos, apenas palmas protocolares. Poucos de pé. Decepção na plateia?
Todavia, pensando bem, Tarantino também é assim. Grande parte da crítica, por exemplo, odiou seu novo projeto, INGLOURIOUS BASTERDS!, ainda inédito no Brasil. É uma sátira sangrenta, encabeçada por Brad Pitt, que, de certo modo, tenta vingar os judeus dos nazistas. Tarantino também é assim. É um diretor que usa e abusa de referências pop, advindas de uma familiaridade com videolocadoras, considerado gênio por uns e engodo por outros. E todos sabem: o melhor de Tarantino é quando nem ele se leva muito a sério. Assim como Kiss Bill.
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Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Parabéns pelo texto, a primeira crítica decente, com argumentos, que li sobre o espetáculo Kiss Bill.
Saudações