RIO DE JANEIRO
Direção: Moacyr Góes
Com: Leon Góes, Giselle Lima, Augusto Garcia, Carla Rosa.
Por Paulo Ricardo Kralik Angelini
Quando mergulhamos na literatura, fechamos os olhos para o real e nos transcendemos para um outro mundo de construções simbólicas. E a palavra traz a imagem, e a imagem transforma-se em sentimento.
Quando a literatura encontra-se com outras artes visuais, por vezes temos a materialização imagética daquilo que antes visualizávamos à nossa maneira. É a construção que vem de fora, mas que também pode se fazer poesia.
Quando a literatura de Lya Luft encontra-se com o teatro de Moacyr Góes, nasce O silêncio dos amantes. Nasce o silêncio da palavra não pronunciada, na comovente interpretação de quatro atores. Quatro monólogos de quatro personagens que trazem poucos objetos em cena: mas que ampliam suas palavras e exibem suas histórias como se fossem um filme. Amargo, pungente, tristemente verossímil.
“O anão”, “O que a gente não disse”, “Copo de lágrimas” e “A pedra da bruxa” são os quatro contos escolhidos da obra de Lya Luft, O silêncio dos amantes, por Moacyr Góes. Não há nenhuma adaptação. Os contos estão ali, literais. Contudo, o que poderia ser uma armadilha (pela obviedade de que a linguagem literária nem sempre funciona quando “lida” em um palco) acaba por se transformar em seu maior êxito. As palavras viscerais de Luft, entremeadas nestes quatro polos, comungam das mesmas dores: de amar demais, de não ser amado, de não ser quem se queria, de querer procurar outra coisa, de ser preterido, de ser esquecido. Dores que geram culpas involuntárias: um menino (Leon Góes) que se descobre anão, e que se culpa pelo transtorno que provoca em seus familiares; uma esposa (Giselle Lima) que se sente culpada por não ter percebido impulsos suicidas do marido que vai às vias de fato; um filho (Augusto Garcia) que se culpa por não ter conseguido ajudar a mãe alcoólatra, num misto de amor e repulsa; uma mãe (Carla Rosa) que testemunha o desaparecimento de um filho, e a culpa que isso traz para toda a família.
Em cada uma delas, uma sutileza bem pensada: o anão é quase um títere de si mesmo, e o corpo vestido de preto deixa escapar a cabeça grande demais que atormenta o personagem. A esposa que observa o marido morto, na verdade um pequeno marionete, habilmente conduzido em cima da “caixa-palco”. O filho, já crescido, que pisa em copos para se lembrar da mãe alcoólatra, em uma metáfora óbvia, mas ainda assim uma ideia brilhante. E a mãe que abre todas as entradas da caixa gigante, à procura do filho que sumiu. Que voou.
A palavra literária se amplia no palco, acompanhada pela belíssima trilha de Ary, Rafael e Leonardo Sperling. A palavra literária ganha vida cênica na voz do competente elenco: como anjos caídos de uma Commedia dell’arte, rompem-se de uma grande caixa de relíquias, um deslumbrante cenário de Paulo Flaksman. Esta palavra que transcende e nos atinge.
É no eco simbólico dessas palavras, que literatura e teatro transbordam-se, transfiguram-se, transformam-se, transformam-nos, testemunhas silenciosas de uma noite irretocável: o silêncio desses seres que não se sabem.
No silêncio desses amantes, a palavra se fez.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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QUERIDO PAULO RICARDO!
Ao ler o que escreves sinto um misto de deleite estético e de conforto, de amparo intelectual, pois te percebo como um sensível tradutor do que, às vezes, sinto, sonho ou simplesmente penso.
Querido! lamento por não poder desfrutar desse conteúdo profundo, conviver com essa pessoa bela e rara que és!
beijos da colega, Dadá