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categoria: 2008

POA EM CENA – DEPOIS DE TUDO

São Paulo

Direção: Flávio Faustinoni

Elenco: Carmela Paglioli, Mari Nogueira e Pedro Garrafa

 

Famílias inteiras tiveram suas casas engolidas por um buraco gigantesco, incompetência articulada pelos senhores engenheiros responsáveis pela obra do Metrô de São Paulo, em Pinheiros. Houve uma vítima.

 

A tragédia que é triste retrato do nosso Brasil contemporâneo ganha os palcos com Depois de tudo. Uma família – mãe, uma filha e um filho – estão hospedados em um quartinho minúsculo de hotel, enquanto aguardam que sua casa seja liberada por conta do desastre do buraco. Contudo, os encarregados pelas obras do metrô avisam que a casa será destruída, e por isso apenas um dos familiares poderá entrar na casa e buscar os pertences.

 

A luta pela dignidade na recolha das lembranças rende, no espetáculo, momentos cruelmente engraçados, mas o surreal da situação mostra todo o desamparo que aquela família enfrenta.

 

Carmela Paglioli constrói uma paulistana com sotaque forte, que conquista aos poucos a platéia. Ela é a filha criançona, uma mulher-menina que festeja, de certo modo, o fato de estar hospedada em um hotel. Acha tudo aquilo muito chique, ainda que uma amiga sua, cabeleireira, tenha morrido no desastre. Se no início do espetáculo seu texto e sua expressão soam um tanto artificiais, quase exigindo a graça, aos poucos a atriz consegue transmitir uma ingenuidade brejeira à personagem, tornando-a adorável. Mari Nogueira e Pedro Garrafa carregam um pouco no estereótipo da mãe castradora e religiosa  e do filho rebelde e sem destino. Mesmo assim, o trio funciona muito bem junto e é um dos destaques do espetáculo. O texto, enquanto transita pela tragédia, é leve e bem escrito. Porém, para aumentar o conflito que por si só é gigantesco, há uma trama dentro da trama, envolvendo mãe e filho. E esta não funciona. É a manjada história do filho que não deu certo. Ele sempre foi rejeitado pela mãe, e tinha dentro da casa uma mala cheia de cocaína. O clichê de sempre no enfrentamento dos dois quase desvia o rumo da peça.

 

O cenário de Depois de tudo é um caso à parte. A grande sacada é construir um quarto de hotel com ares de obra abandonada, andaimes e ferros espalhados. O êxodo forçado daquela família é metaforicamente transferido para a platéia. Antes de iniciar, Garrafa recolhe algumas pessoas da platéia e as conduz para outros lugares. Uma idéia simples, mas eficiente.

 

É esse o grande mérito de Depois de tudo: a simplicidade e uma quase-delicadeza, mesmo ao abordar um fato tão grotesco.          

 

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Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao PORTO ALEGRE EM CENA 

 

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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