CANADÁ
Direção e coreografia: Daniel Léveillé
Elenco: Frédéric Boivin, Mathieu Campeau, Justin Oliver Henderson Gionet, Esther Gaudette, Caroline Gravel, Emanuel Proulx, Gaëtan Yan Michel Viau
O Teatro Renascença estava mais do que lotado. Pessoas aglomeravam-se em filas intermináveis, serpenteando todos os locais possíveis do hall de entrada do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre. Dentro do teatro, todos os lugares ocupados, e boa parte das escadas tomadas. Do lado de fora, mais uma dezena de curiosos, a reclamar por não conseguirem dividir aquele espaço.
Crépuscule des Océans era, portanto, um dos mais aguardados espetáculos do 16º Porto Alegre em Cena. Estar lá dentro dava ao espectador uma inegável sensação de pertencimento a um momento extremo de vanguarda criativa: a coreografia do canadense Daniel Léveillé em uma montagem elogiada pelo mundo inteiro. A curiosidade: grande parte do espetáculo dá-se com os bailarinos nus em pelo.
Os movimentos trabalhados em Crépuscule des Océans são quase pueris de tão simples. Evidentemente, simples para quem vê, pois se percebe o nascer do suor na pele, o esforço de cada músculo estendido. É quase um passeio pela anatomia do corpo humano – uma versão animada de BODIES, aquele dos cadáveres – quando em movimento. Por isso, até se justifica que os bailarinos alternem-se vestidos com malhas e nus. É certo que as primeiras entradas dos artistas nus causam um certo estranhamento, mas é incrível como nos acostumamos com a carcaça humana enquanto máquina, e depois tudo novamente fica sem grandes novidades. Logo, a repetição exaustiva dos mesmos movimentos transforma o ballet em um desfile redundante. A energia despendida pelos bailarinos é extrema: eles pulam, grudam-se em dois e giram um em cima do outro, postam os braços no chão, ficam de quatro, quase brincadeira de criança. Só que nada mais parece empolgar, depois dos primeiros gestos.
As sonatas para piano de Beethoven alternam-se com o próprio silêncio, mas o exercício nunca termina. Certo, é inegável a percepção do vigor físico dos bailarinos. Certo, a ousadia desses artistas também é louvável (vá dar essa ideia a um grupo de bailarinos e veja se eles topam). Porém, faltou lugar para a transcendência, para a emoção, e Crépuscule des Océans resulta em um espetáculo frio. Infelizmente, quiçá pelo excesso de expectativa do público, quiçá pela enfadonha repetição dos movimentos, ainda que intencional, dos bailarinos, o espetáculo não logrou êxito diante de uma imensa plateia, que sobrelotou o teatro do Renascença, ávida por uma apresentação de fato inovadora e performática.
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Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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