São Paulo
Direção: Celso Frateschi
Elenco: Angelo Brandini, Elisabeth Hartman, Christiane Galvan, Arô Ribeiro, Sidney Santiago, Heitor Goldflus, Cinthya Chaves, Gisela Millás, Adriana Mazzoni
À luz de velas, ouvimos o murmúrio dos atores no palco, acompanhados por… roncos da platéia.
Tio Vânia, texto fabuloso de Tchecov, que trabalha com as questões do tempo e o que fazemos para evitar frustrações durante a sua passagem, ganha uma montagem sonolenta, em exibição no Porto Alegre em Cena.
Um teatro de texto, evidentemente, depende da boa execução por parte de seu elenco. Infelizmente, a peça dirigida por Celso Frateschi falha na composição de seus atores. O ator Angelo Brandini, que faz o personagem central, por exemplo, teve uma dicção deficiente, dificultando a compreensão. O tom entediante do personagem que, contraditoriamente, é um dos pontos máximos do texto russo, recheando Vânia de humor negro, ironia e sarcasmo, na montagem paulista não consegue passar o aprofundamento psicológico necessário, resultando apenas num maçante discurso. O elenco de apoio também não se sai muito bem, soando forçado e caricato, além de existir problemas graves na sua escolha, como a do ator Sidney Santiago, que vive um médico quarentão, mas que não parece ter mais que vinte anos. Aliás, todo o gestual do ator é exagerado. De todos, sai-se ilesa a atriz Cinthya Chaves, que constrói uma Helena vigorosa.
As situações vividas por uma família russa rural, um tanto decadente, não decolam. O texto parece mastigado, superficial, e a ação torna-se enfadonha. Não há grandes sacadas criativas na direção do espetáculo, que resulta simples demais. Um cenário comum, com uma pintura clichê do campo ao fundo, e algumas cadeiras, não oferecem uma dinâmica diferenciada a Tio Vânia, fato esse agravado pela monotonia pastel dos figurinos. Outros elementos, como o andaime, têm pouco aproveitamento, deixando no ar a idéia de que há muita coisa a ser ajustada.
Em nenhum momento o espectador parece se identificar com o que é dito no palco, o que é uma heresia, pois o texto de Tchecov tem, de fato, uma atemporalidade, prova disso são as diversas montagens já realizadas, aqui no Brasil, da mesma peça dramática. Portanto, pode-se perguntar: por que encenar Tio Vânia novamente? Esperava-se que essa produção tivesse algum diferencial, mas isso não se concretiza. Ao sair do teatro, lembro-me com saudade das montagens com Diogo Vilela e Renato Borghi no papel principal.
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Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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