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categoria: 2008

POA EM CENA 2008 – AMORES SURDOS

Minas Gerais

Direção: Rita Clemente

Elenco: Grace Passô, Gustavo Bones, Marcelo Castro, Paulo Azevedo e Mariana Maioline

 

É impressionante como o pouco é muito. O grupo mineiro Espanca! deu provas de que pode ser conciliado o teatro com inovações, sem necessariamente abdicar da palavra. Em cena, um ator narra todos os acontecimentos futuros: o telefone irá tocar. É um irmão que mora em algum lugar no exterior e liga para dizer que está com saudades. Depois, ao fim do espetáculo, outra vez o telefone irá tocar, para avisar que este mesmo irmão se suicidou.

 

A família que habita a casa é composta por uma mãe (excelente a atriz que a interpreta) e quatro filhos. Um mais novo, com problemas respiratórios, que vive de pés descalços, brincando de construir com pecinhas de madeira. Um mais velho, que tem “o seu primeiro dia” em algo nunca de fato esclarecido. E um do meio, sonâmbulo, aquele que explicou à platéia os acontecimentos da peça. Há ainda uma irmã, alienada e desinteressada, sempre com fones no ouvido, a repetir tardiamente o que a família já comentara. Por fim, há a presença-ausente do pai, que é citado como alguém que deve estar dando a sua caminhada em algum parque.

 

Os conflitos surgem nas pequenas coisas. O cenário, composto por uma casa perceptível por detrás de uma tela transparente, auxilia nessa visão raio-x da família. Outra bela idéia da diretora Rita Clemente é a utilização de música em volume alto para representar as brigas horríveis que a família presencia de seus vizinhos. Sim, a discussão é dos outros, porque dentro daquela casa, ainda que seja notória a problemática situação daqueles parentes, a não-comunicação prevalece. Não há espaço para brigas: há apenas o silêncio, o olhar repressor. E quando a atmosfera fica pesada, a família sapateia. Literalmente. Há dois números de sapateado, uma idéia original e criativa.

 

Porém, o melhor está reservado para o final. Lembrando a metáfora do “Há um elefante nesta sala”, que significa uma espécie de silêncio incômodo, e também remetendo a Dostoievski em sua novela O Crocodilo, surge a existência de um hipopótamo, roubado do zoológico pelo filho menor, que com isso pretendia respirar melhor, já que o mamífero teria pulmões enormes. E para completar, o animal devorou o pai.

 

Com um texto conciso e sempre inteligente, e contando com excelentes atuações, Amores surdos é uma grata surpresa neste Porto Alegre em Cena.

 

( * * * * * )

 

Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao PORTO ALEGRE EM CENA 

 

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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