Teatros lotados. Gargalhadas. Dor na barriga de tanto rir. No palco, atores divertidos em textos inteligentes e muito engraçados. Personagens que tiram sarro de si próprios, em atuações espontâneas e improvisadas. Essa é a receita do sucesso da Terça Insana, projeto que nasceu pequeno, em São Paulo, e ganhou fama, sucesso e bilheteria por todo o país.
Já fui quatro vezes assistir à intrépida trupe do Terça Insana. A primeira delas, uma formação clássica que incluía, além dos ainda remanescentes Grace Gianoukas e Roberto Camargo, Ilana Kaplan, Luis Miranda e Octavio Mendes. Quem vai se esquecer da Evelize, a modelo-atriz que queria fazer escova permanente de Kaplan, ou da vereadora do morro de Miranda, ou da maravilhosa Irmã Selma de Mendes? Chega a ser nostálgico. Muitos dos bordões foram incorporados na linguagem, entre amigos.
Pois o Terça Insana voltou a Porto Alegre, desta vez em um festival: três noites de exibição, cada qual com esquetes diferentes. Fui na sexta-feira, e o tema era O afeto que se encerra, ou algo do gênero. Teatro lotado, expectativa enorme. Personagens novos. Quem sabe novos sucessos? Além de Grace e Roberto, Agnes Zuliani, Guilherme Uzeda e Marco Luque, que definitivamente roubou o posto de queridinho da platéia, sendo sempre o mais ovacionado na hora dos aplausos.
As expectativas foram um tanto quanto frustradas. Não que não fosse de todo divertido. Terça Insana é quase uma instituição em Porto Alegre, e soa quase um sacrilégio dizer: humm, meia boca. Contudo, é isso. Não pegou. A platéia comentava, um tanto decepcionada, na hora de ir embora: Já foi melhor…. Dos novos personagens apresentados ao público gaúcho, a adolescente entediada e a boneca tesãozinha de Gianoukas; a mal-amada de Zuliane; o professor de universidade de Camargo; o palestrante de neurolingüística de Uzeda e o naturalista baiano e o namorado apaixonado de Luque provocaram gargalhadas. Porém, a todo momento vinham insights dos outros personagens desses mesmo atores, infinitamente mais divertidos, como a viciada em Lexotan, a Santa Paciência, a empregada look my face, o taxista, o locutor sexy com voz de pato, a bichinha fashion…
De fato, não houve aquele arrebatamento das outras vezes, com o público chorando de tanto rir. Pior ainda são certos personagens que proporcionaram um tétrico silêncio na platéia, como a abelhinha de Zuliani e a gaúcha emergente de Gianoukas. A sensação de frustração se agravou na hora da saída: será que tínhamos, nós todos de sexta-feira, escolhido o dia errado? Será que sábado ou domingo foi mais divertido? Ou será que o Terça Insana está perdendo o gás e a espontaneidade? O agravante é que, de minha parte, tenho sempre saído um pouco mais frustrado do que da vez anterior. Ou seja, a cada apresentação, eles estão um pouco menos engraçados. De qualquer maneira, Terça Insana ainda representa uma nova linha na comédia teatral brasileira, e isso é indiscutível. Porém, do jeito que vai, deverá ser reciclado de alguma maneira. Quando há as apresentações em São Paulo, semanais, até tudo bem personagens não tão carismáticos como os clássicos, mas em excursão nacional, tudo o que o público espera é morrer de rir. Não esboçar sorrisos, como desta última vez. Ficou a impressão de que o Terça Insana apostou na padaria de apresentações, perdendo o improviso e ganhando produção em massa; ganhando dinheiro, mas perdendo um pouco do charme e do escracho. Uou, uou, uou, alguém aí tem um lexotan para a galera?
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras.
Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si.
Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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