São Paulo
Direção: Sérgio Ferrara
Elenco: Caco Ciocler, Joaz Campos, Sylvio Zilber, Abraão Farc, Igor Kovalewski, Nelson Peres, Dan Rosseto, Liza Scavone, Júlio Machado e Ronaldo Oliva
É de 1873 este texto de Ibsen, que bebe em dados históricos e conta o esforço do Rei Juliano (331 dC) para aniquilar com o cristianismo. Quanto mais o imperador esforça-se para tal intento, mais fracassado ele se sente, pois seus ataques fortalecem a Igreja. A montagem de Sérgio Ferrara, que já apareceu no POA EM CENA com Abajur Lilás.
O texto é denso e Ferrara inicia o espetáculo com mão pesada, apostando no drama pelo qual atravessava o Império Romano. Surge um Caco Ciocler de aspecto muito grave, tentando ajeitar suas estratégias de expansão. O figurino de Márcia Orcini é estilizado, vestimentas pretas e longos sobretudos. O cenário é econômico, apenas uma mesa, algumas cadeiras e uns banners que deslizam do alto durante o decorrer da peça.
IMPERADOR E GALILEU, de certa maneira, morre nas boas intenções. Um bom diretor, um bom texto e um bom ator principal não são garantias para um bom espetáculo. A montagem padece na falta de ritmo, em desnecessárias duas horas, com longos solilóquios e um fraco elenco de apoio. Na noite de estréia, houve um certo ar de amadorismo, com problemas no cenário (o tapete ficou enrugado numa das lutas dos personagens, quase virando as cadeiras) e uma hesitação nas falas. Contudo, o mais grave, a meu ver, é a indecisão no tom do espetáculo. Se a rigidez inicial do drama provoca aquela encenação típica das obras históricas, atmosfera grave, elenco com o exagero na face, pés que batem no chão numa sempre-pressa, num quase-desespero, como se tudo devesse ser discutido para ontem, há também outras passagens que procuram um humor ingênuo, em geral apoiadas na expressão facial do rei ou na própria ironia do texto.
É uma pena. Ainda que Ciocler se esforce e dê dignidade a seu personagem, IMPERADOR E GALILEU não decola, e o ótimo confronto Estado X Igreja, proposto por Ibsen, acaba diluído pelos problemas da produção.
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Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras.
Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si.
Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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