(Alemanha)Coreografia e direção: Constanza Macras
Bailarinos: Zaida Ballesteros, Knut Berger, Nir De-Volff, Daniel Drabek, Fernanda Farah de Souza, Jared Gradinger, Margret Sara Guðjónsdóttir, Claus Erbskorn, Jill Emerson, Rahel Savoldelli
Este texto poderia começar assim:
Constanza Macras, argentina radicada na Alemanha há mais de dez anos, traz a Porto Alegre BIG IN BOMBAY, um espetáculo virtuoso, excelente crítica aos mass media e às relações humanas, extrapolando os limites do real e adentrando no campo onírico. No palco, bailarinos-cantores-atores revezam-se num movimentar-se non sense provocativo.
Este texto poderia começar assim:
BIG IN BOMBAY é um exemplo do pós-moderno pretensioso. Embalado por canções indianas e pops, com coreografia (?) irritantemente repetitiva e apoiado em gags ingênuas, o espetáculo é cansativo e circular: não chega a lugar algum.
Mas este texto começará assim:
Talvez a melhor fala de BIG IN BOMBAY é aquela, no segundo ato, quando se diz que: BIG IN BOMBAY é um espetáculo que não pode ser explicado; ele tem que ser vivenciado. Ok, ainda que seja um clichê que os moderninhos adoram dizer, neste específico caso é verdade. E como todas as vivências, o espetáculo dirigido e coreografado por Constanza Macras, argentina radicada na Alemanha há mais de dez anos, passeia pelo tédio, mas também surpreende e encanta em algumas partes. Não-linear, com movimentos repetitivos, muitas vezes enfadonhos, assumidamente non sense, BIG IN BOMBAY tem a cara do Porto Alegre em Cena, mostra na qual o experimentalismo muitas vezes ganha o espaço dos rotineiros caça-níquel que nos visitam durante o decorrer do ano.
O cenário: uma espécie de sala de espera de uma estação de metrô (?), de uma repartição pública (?), enfim, uma grande sala retangular, envidraçada, cujo teto também é um espaço aproveitado. Há uma banda ao vivo, que executa músicas indianas, norte-americanas e de várias outras etnias. No palco, quase vinte atores-bailarinos executam personagens que assumem certos estereótipos: temos a loirinha que faz de tudo para dar certo na carreira, a latina caliente que passa boa parte transando com o indiano sarado, o diretor histriônico, a neurótica, etc. Claro que tudo pode ser também suposições, pois o roteiro não é palpável. São pequenas esquetes intercaladas com música, algumas cantadas ao vivo. As histórias não obedecem a nenhuma lógica, e são enriquecidas (ou confundidas?) com o uso de imagens em um telão. Parece melhor do que de fato é. O espetáculo poderia ser mais curto, ah, isso é verdade. Para vencer o primeiro ato, são necessárias doses extras de paciência e de esperança de que tudo possa melhorar. Mais da metade do Teatro do Sesi, porém, não teve tal paciência, pois fugiu tão logo o primeiro ato terminou, sendo necessário uma moça falar ao microfone: Haverá intervalo de vinte minutos. Eles sabiam, claro. Foram embora por outros motivos.
Contudo, não sei se recompensa pela paciência ou porque as coisas acabam por se acomodar mesmo, mas o segundo ato é muito superior ao primeiro, tendo boas sacadas cênicas e, no mínimo, dois excelentes números musicais: aquele dos murmúrios e o da Nika Costa. Os aplausos enlouquecidos no final do espetáculo também eram esperados, já que tudo o que se mostra alternativo ganha a simpatia de uma platéia, digamos, mais refinada em termos teatrais. Nem 8 nem 80. Certamente BIG IN BOMBAY é polêmica, e isso não é gratuito. Também precisamos desse tipo de experiência. Mas se esperava muito mais do que aquele subjetivismo poético e hermético que Gerald Thomas já fazia (e irritava) nos anos 80.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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