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categoria: 2007

ANGU DE SANGUE


(Pernambuco)

Texto: Marcelino Freire
Direção: Marcondes Lima
Elenco: André Brasileiro, Fábio Caio, Gheuza Sena, Hermylla Guedes e Ivo Barreto

O cinema e a música de Pernambuco há muito deixaram de ser manifestações curiosas, folclóricas, para o olhar do resto do Brasil e se instalaram como pontos altos de uma cultura forte, que alia o popular a uma estética renovada. BAILE PERFUMADO, AMARELO MANGA, ÁRIDO MOVIE, DESERTO FELIZ, Otto, Mundo Livre S/A, Nação Zumbi, Cordel do fogo encantado são apenas alguns dos exemplos. Para nós, aqui da ponta sul do Brasil, faltava a oportunidade de conferir como anda o nível teatral dos pernambucanos. Faltava, pois ANGU DE SANGUE, participante desta edição do Porto Alegre Em Cena, veio e incendiou o Teatro Renascença.

Belo, poético, visceral. Adjetivos soam como clichês para tentar caracterizar o espetáculo de Marcondes Lima. Enquanto a platéia se acomoda, cinco sacos de lixos no palco. A luz apaga, os sacos movimentam-se. Os atores estavam ali, todo o tempo, ensacados.

Nove histórias de Marcelino Freire formam o esqueleto de ANGU DE SANGUE. São visitas à marginalidade, à solidão humana, ao desespero urbano. Em Faz de conta que não foi. Nada todos os cinco atores no palco, dessincronizados, relatam a tragédia de um menino de rua assassinado. Em Muribeca, com soberba atuação de Fábio Caio, uma mulher faz sua declaração de amor a um lixão; horror e riso misturados na platéia. Volte outro dia é o ponto fraco do espetáculo, pois não tem o brilho no texto nem uma atuação inspirada de André Brasileiro que, por sua vez, arrebenta como um gay nostálgico em A volta de Carmem Miranda, um dos mais divertidos momentos. Hermilla Guedes (O CÉU DE SUELI, DESERTO FELIZ) faz uma menina que quer se livrar de seu bebê em O caso da menina e participa da mais terrivelmente bela das esquetes: Socorrinho. Hermilla canta, quase um RAP, quase um poema, a história de uma menina de seis, sete anos que foi seqüestrada e violentada. No outro lado do palco, Fábio Caio manipula uma pequena boneca sem rosto. Tão simples e tão comovente. Gheuza Sena é outro ponto alto nas suas duas participações: Daluz, uma mulher que se orgulha de ter dado todos os seus filhos, e o divertido The End. Neste, pega um homem na platéia e, de surpresa, tira seu sapato e faz o seu pé. A pedicure discorre sobre uma outra mulher que acredita que os norte-americanos são superiores em tudo. Completa os quadros a que dá nome à peça. Em Angu de sangue, Ivo Barreto faz um homem que relaciona um assalto com o fim de um grande amor.
A décima história, não escrita por Freire, é Perna, baseada em fato real e homenagem a um homossexual assassinado aos dezenove anos. É um filme que recebe uma platéia barulhenta e preconceituosa – todos os cinco atores – numa construção na qual o riso é constrangedor.

Cantado no palco, dançado, com imagens num telão, ANGU DE SANGUE mistura diferentes linguagens e é um sopro nas quadradinhas produções teatrais. A platéia do Teatro Renascença assistiu àquela que será, com certeza, um dos destaques de toda a mostra.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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