(São Paulo)
Texto: adaptação do conto de José Saramago
Direção: Marcelo Lazzaratto
Elenco: CIA Elevador Panorâmico
Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que não há ilhas desconhecidas
Não é fácil adaptar uma obra literária para o teatro. Mais difícil é adaptar uma obra de José Saramago para o teatro. Ainda mais complicado é adaptar uma obra literária de José Saramago para o teatro infanto-juvenil. Merecem, pois, todos os elogios a adaptação primorosa que faz o grupo paulista CIA Elevador Panorâmico para o belo O Conto da Ilha Desconhecida.
A história de Saramago é metafórica: a obsessão de um homem, que supera todo o tipo de burocracia e de descrença para partir em busca de uma ilha desconhecida. Transpor tamanha carga poética para o palco exige um absoluto domínio das linguagens (literária e teatral), e isso o grupo mostra desde as primeiras cenas.
Dividida em dois atos, o primeiro apresenta um cenário inventivo. Há três portas (a das petições, a das decisões e a dos obséquios) em diferentes níveis no palco, interligadas por caixas que se fazem de degraus. A mulher da limpeza, aquela que abre a porta das petições, recebe o pedido do popular e repassa-o aos funcionários do rei. Aqui, o corpo burocrata ganha a interessante imagem de uma Mahakala, aquela figura mitológica indiana de seis braços. As três atrizes separam-se desse corpo e compõem uma espécie de telefone sem fio, até as notícias chegarem ao rei. É nesta parte que o espetáculo ganha em visual, em ação dramática, para agradar aos pequenos, que interagem com os atores. Interessante igualmente a maneira como o povo é retratado ao oferecer presentes ao rei, todo o dia, na porta dos obséquios. Vários atores multiplicam-se no palco e mostram as sutilezas, de forma criativa, desse pagamento.
É quando surge a figura do homem que pede um barco. Ele desafia as normas e ali espera, até ter um encontro com o rei em pessoa. O povo surpreende-se com a coragem do outro e, ao mesmo tempo, irrita-se com a falta de piedade do rei, que não lhe atende. Depois da pressão popular, o rei volta atrás e resolve conversar com o homem.
Todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas
Com inventividade, o palácio é transformado, enquanto a música pop de Moby surge em cena, no cais, ou melhor, na caravela que é palco do segundo ato. A partir dali, a peça ganha contornos mais abstratos, mais maduros, ainda assim prendendo a atenção das crianças que estavam na platéia.
A mulher da limpeza segue o homem que queria um barco. Nasce o casal metafórico de Saramago nessa espécie de nova arca de Noé. No segundo ato, os atores coadjuvantes que cercam o casal servem, vez que outra e alternadamente, de narradores, numa espécie de coro grego. Bela é a cena do sonho, brilhantemente arranjada no palco, com um final tocante, quando toda a tripulação – no sonho – decide abandonar o navio. Mais uma trilha pop e uma iluminação pulsante fazem a platéia arrepiar-se.
Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és
Os momentos finais, de extrema doçura, mostram a paixão nascer entre o homem e a mulher, que mesmo sozinhos, pois ninguém compra a idéia de acompanhá-los até a ilha desconhecida, não desistem de suas metas. Uma canção que surge no sonho ecoa na última cena, quando todos os atores cantam. O homem e a mulher dão nome ao barco: A Ilha Desconhecida. Partem em busca de si mesmos, numa viagem que carrega, junto, todos aqueles que decidiram embarcar, num sábado chuvoso de Porto Alegre, em seus próprios sonhos.
Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
Em uma adaptação fidelíssima do texto de Saramago, e com a rara proeza de possuir tantos níveis de compreensão que são possíveis diferentes leituras, seja do público infanto-juvenil, seja do público adulto, A ILHA DESCONHECIDA consegue ser essa deliciosa mistura que resulta numa aventura poética inesquecível. Com ótima atuação do elenco, é mais uma mostra dos tantos acertos que é esse PORTO ALEGRE EM CENA 2007, seguramente uma das mais fortes edições entre todas as 14.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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