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categoria: 2005

UM RASTRO DE LUZ

Direção: Celso Nunes
Elenco: Julia Lemmertz, Orã Figueiredo, Edney GeovenazziOs atores apresentam monólogos, longo texto falado ao microfone, olhos certeiros para a platéia. UM RASTRO DE LUZ, peça escrita por Brian Friel e dirigida por Celso Nunes, teve sua estréia neste Porto Alegre em Cena. No palco, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo (ambos excelentes) e Edney Geovenazzi (o ponto fraco do tripé) representam a história de uma cega, seu marido e o médico oftalmologista.
Toda a construção da personagem de Julia se dá aos poucos. Em seus relatos, incrivelmente visuais pela habilidade da atriz em construir as cenas, mesmo que permaneça quase o tempo inteiro sentada frente ao microfone, vemos a menina cega que aprendeu com o pai a amar sua condição, a observar o mundo através dos outros sentidos. É esta mulher confiante que conhece o bobo Frank, um cara que adora excentricidades: criar cabras iranianas na Irlanda (o ponto mais cômico do espetáculo), salvar baleias e texugos, apaixonar-se por uma cega. Tão logo Frank conhece Molly, ele passa a ler tudo sobre a cegueira e procura o famoso Dr. Rice, médico de respeito que carrega um sentimento de perda, com a fuga da esposa e seu melhor amigo.
Mesmo que lento em alguns momentos, o espetáculo cresce lá pela meia-hora inicial, quando os três começam a narrar a decisão de Molly ser operada, apesar de todos os riscos que tal intervenção teria. A construção divertida e terna de Orã garante o sorriso constante, por vezes gargalhado. Já Julia nos oferece uma Molly leve e adorável. A cena em que a atriz relata uma dança na véspera da cirurgia é memorável: vai dos braços longos em delicado movimento, quase a voar, às lágrimas desesperadas em segundos. Geovenazzi, mesmo sendo o veterano, parecia o mais inseguro. Seu texto saiu truncado várias vezes. O ator exagera na pompa que o seu personagem exige, resvalando muitas vezes no caricato.
UM RASTRO DE LUZ cresce ainda mais com a descrição do processo cirúrgico e da reação de Molly (Lemmertz foi aplaudida em cena aberta) quando, finalmente, consegue enxergar.
Uma espécie de segundo ato, muito mais sombrio, toma os últimos 40 minutos do espetáculo. A partir dessa nova realidade vivida por Molly, percebemos a degradação da personagem, mostrada através da voz nervosa, dos gestos indecisos de Lemmertz. Aprender a enxergar acaba sendo por demais doloroso para Molly, e várias complicações parecem querer levá-la de volta à cegueira.
Mesmo que melodramático, UM RASTRO DE LUZ possui todos os elementos de um bom espetáculo: um texto denso e tenso, um elenco afiado, uma direção segura, com direito a momentos tocantes.
Julia Lemmertz chorou, de verdade, ao agradecer à platéia pela calorosa recepção de seu espetáculo. Talvez por suas raízes gaúchas, talvez pelo alívio de ter vencido o desafio de estréia, mas com certeza por ter sentido a reação emocionada do público, e saber que tinha conseguido fazer de sua Molly uma personagem inesquecível.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras. Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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