Direção: Oscar Ferrigno
Elenco: Norma Aleandro, Julio Lopez, Silvina Bosco, Florencia Raggi, Fabio Aste, Paola Messina, Ivan Espeche, Marcos Montes
Tive a oportunidade de assistir, no teatro Maipu, em Buenos Aires, neste último verão, à montagem LA SEÑORITA DE TACNA. O teatro, ainda que revelando marcas de decadência, muito mofo e poltronas surradas, é um dos mais tradicionais da capital argentina, e apresentava em seu palco uma de suas grandes atrizes, talvez a maior: Norma Aleandro.
Essa peça agora é trazida para Porto Alegre, para o palco do São Pedro. Norma Aleandro é descendente daquela linha de atrizes que beiram a perfeição: uma expressão corporal segura, um olhar rico em sutilezas, uma voz potente. A atriz é sempre atração nos filmes que estrela. Assisti-la, bem pertinho, é uma dádiva.
O texto de Mario Vargas Llosa trata de uma família em meio à decadência plena: problemas financeiros, conflitos, traições. Aleandro é Elvira, ora jovem mulher, ora velha decrépita, sem sair de cena. As rememorações são trazidas à tona e vividas apenas com o exercício do corpo, da voz e de alguns objetos em cena, como um xale. Suas mãos e seus olhos, especialmente, funcionam como marca dessa mudança temporal. Sua fala também varia entre o cansaço e a vivacidade. O elenco de apoio de LA SEÑORITA DE TACNA é igualmente muito bom, mas é Norma Aleandro quem reina absoluta. Aliás, apenas Aleandro, Lopez, Bosco, Messina e Montes permanecem no elenco, entre os que estavam na temporada do último verão portenho.
Sobre seu texto, Llosa já disse: Ainda que, por um lado, se pode dizer que La señorita de Tacna se ocupa de temas como a velhice, a família e o orgulho individual, há um assunto interior e central que envolve todos os demais, sendo a coluna vertebral desta obra: como nascem as histórias?
Fala isso porque LA SEÑORITA DE TACNA apresenta as histórias contadas ao pé do ouvido da platéia, envolvendo segredos e mentiras. Qual a verdadeira história daquela família, de sua construção? Como o revirar de um álbum de fotos amareladas, LA SEÑORITA DE TACNA compõe esse mosaico de rostos e vidas, a partir das memórias de Elvira, condutora primeira do espetáculo.
E, ao sairmos do teatro, é a voz de Aleandro que permanece, sussurrada, em nossos ouvidos, como se passássemos quase duas horas ouvindo as lembranças de uma doce vovó.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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